Por Gustavo Mayrink

Apesar de amplamente explorado pelo cinema americano - mas não só por ele -, o recurso do"filme dentro de um filme"volta e meia nos brinda com algumas obras instigantes. Do magistral e cruel Crepúsculo dos Deuses (1950) aos últimos trabalhos de David Lynch -em especial o onírico Cidade dos Sonhos (2001) -, resvalando no sarcasmo de Woody Allen em Dirigindo no Escuro (2002), Hollywood nunca deixou de questionar e retratar sua própria imagem e simbologia.

Para confrontar estes e novos paradigmas, sem perder a graça, entra em cartaz esta semana Rebobine, Por Favor (Be Kind, Rewind, EUA, 2008, 102 minutos), do badalado diretor francês Michel Gondry (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, 2004) e um dos destaques da última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Nesta trama, o proprietário de uma obsoleta locadora de filmes (Danny Glover, de Máquina Mortífera) se recusa a trocar seu surrado acervo em VHS pelos cada vez mais onipresentes discos digitais. Além da teimosia, o que mais embala a vida do Sr. Fletcher são as composições de Fats Weller, lendário pianista e comediante do início do século passado que teria nascido no mesmo prédio onde atualmente funciona sua locadora.

Honrando suas tradições musicais, Sr. Fletcher decide fazer uma viagem para celebrar o aniversário da morte do ídolo, não sem antes escalar o fiel ajudante Mike (o rapper Mos Def) como responsável pela loja durante sua ausência. Para isso, Mike precisa manter seu melhor amigo, o destrambelhado Jerry (Jack Black, de Escola do Rock), longe da locadora, em uma missão que obviamente naufragará. Como se não bastasse, Jerry "acidentalmente"desmagnetiza todas as fitas da locadora, levando o comparsa ao desespero e revoltando a clientela.

E já que, como se diz, não há limites para a insânia, a dupla resolve refilmar de maneira caseira algumas das fitas estragadas, sem saber que em pouco tempo elas se tornarão sucessos de bilheteria na locadora, em especial para a fidelíssima Srta. Falewicz (Mia Farrow, de Neblinas e Sombras, entre muitos outros). A partir daí, versões toscas e hilárias de clássicos como Os Caça-Fantasmas (1984), Robocop (1987) e Conduzindo Miss Daisy (1989) vão entrando em cartaz para a alegria e transformação de uma vizinhança que nunca mais será a mesma.

Gondry, que sempre privilegiou soluções criativas e lúdicas a previsíveis efeitos especiais, já foi comparado ao mestre Alain Resnais, seu conterrâneo, pela forma poética de abordar o universo dos sonhos, a passagem do tempo e as lembranças em seus filmes.
"Na minha casa videogame é proibido e a televisão só pode ser usada para reproduzir alguma obra", disse, em recente passagem pela cidade, onde autografou livros e chegou a tocar bateria em uma festa.

Curiosamente, no ano em que a última companhia fabricante de videocassetes (a japonesa JVC) anunciou o fim da produção dos aparelhos, Rebobine comprova que não há nada melhor para trazer de volta as boas lembranças do que uma memória fraca.
E um videocassete usado.

 


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