Crítica:
Por Lúcia Helena de Camargo

Quando você decide ir ao cinema, talvez passe pela sua cabeça o preço do ingresso, a demora em chegar até a sala de exibição (trânsito...) e se vale investir nisso duas horas da sua vida. Depois dessas reflexões, muita gente decide esperar a fita sair em DVD, já que atualmente depois de cerca de dois meses ele já chega às locadoras.

Mas apesar disso tudo há alguns filmes que merecem ser vistos na tela grande, durante o ritual coletivo da sala escura. Com pipoca ou não. A seu critério. O preâmbulo foi para dizer que Queime Depois de Ler é um desses que valem a viagem. Trata-se entretenimento de primeira categoria.

É dirigido pelos irmãos Joel e Ethan Coen, especialistas em comédias de humor negro, como Fargo (1996) e Onde os Fracos Não Têm Vez, vencedor de vários prêmios no Oscar 2008, entre eles o de melhor direção. E no elenco está um time de atores interessantes que nunca tinha sido reunido antes. Frances Mcdormand, uma das preferidas dos diretores, vive Linda Litzke, funcionária da rede de academias Hardbodies Fitness, em Washington. Ela está obcecada pela idéia de que precisa fazer várias cirurgias plásticas radicais para conquistar o homem certo.

Sempre ao seu lado está o colega Chad Feldheimer, professor de ginástica cujo interesse na vida são os exercícios físicos. E só. Brad Pitt está engraçadíssimo no papel. Meio abobalhado, algo desastrado, usando um topete absurdo, entra com a cara e a coragem (principalmente a cara) na empreitada de Linda, que tentará vender aos russos um CD achado por acaso na academia, que contém supostas informações secretas da CIA, a Agência Central de Inteligência norte-americana. Opa, espere... Russos? Sim. Nada mais anacrônico hoje do que tentar vender segredos de Estado à Rússia, nos mostra o filme, ao exibir Linda entrando na embaixada de arquitetura pobre, corredores estreitos e funcionários burocratas.

Osborne Cox (John Malkovich) é a suposta fonte dos tais dados sigilosos. Funcionário da CIA recém-demitido, está empenhado em acabar com muitas garrafas de uísque. E entre um copo e outro, escreve seu livro de memórias. Por motivos variados, acaba indo morar em um barco. Cínico como sempre e com o ar blasé que lhe cai muito bem, o ator dá show.

Para azeitar e intrincar a trama de Queime Depois de Ler há Harry Pfarrer (George Clooney), bonitão canalha, que trai a mulher com outras em encontros marcados pela internet, além de manter uma amante fixa, Katie Cox (Tilda Swinton), cujo marido é o ex-agente Osborne Cox. E na berlinda dos acontecimentos, mas sempre atento e com poder de mudar tudo, está Ted Treffon (Richard Jenkins), chefe de Linda na academia de ginástica, por quem ele é perdidamente apaixonado. “Apesar do cenário de Washington, esse filme trata de pessoas terrivelmente burras fazendo burrices que envolvem sexo e outras situações", resumiu Clooney.

Pode parecer complicado de entender, mas não é. O talento dos Coen está justamente em enredar o espectador gradualmente, apresentando as situações de maneira que você se envolve com cada um dos personagens, vai conhecendo suas histórias de vida, anseios e aflições. E percebe nuances e camadas mais profundas em cada um deles ao longo da história. A cada seqüência, a crítica mordaz ao modo de vida da classe média americana fica mais patente. E mais engraçada.

E há ainda as anedotas dos bastidores. Uma delas: as cenas que acontecem dentro da academia de ginástica foram filmadas em um galpão vazio no qual no passado tinha funcionado uma loja de discos Tower Records, em Paramus, Nova Jersey. A construção de cenários ficou tão real (a cargo do desenhista de produção Jess Gonchor e sua equipe) que diversos habitantes locais insistiam em se matricular.

O longa acaba sendo um irônico sumário da vida ocidental contemporânea. Está ali a preocupação exagerada com a forma física, a busca do par perfeito na internet, a ganância, as conspirações nonsense e a suspeita de que todos têm sempre algo a esconder dos demais. Porque invariavelmente têm mesmo.

 

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