No
primeiro documentário de João
Jardim, Janela da Alma (2002), 19
pessoas com problemas de visão discorriam
sobre a importância do olhar. Já no
premiado Pro Dia Nascer Feliz, que
estréia nos cinemas de
São Paulo e Rio de Janeiro, é o
olhar do diretor que revela o importante.
Alunos e professores do ensino médio
e fundamental recheiam o documentário
com tristes declarações sobre
o sistema educacional vigente no País.
A condição flagrada por Jardim
não é nada animadora, muito
menos surpreendente. Escolas de Pernambuco,
São Paulo e Rio de Janeiro participaram
das filmagens, dando uma pequena amostra
da grave situação que parece
piorar com o passar dos anos.
Na tela, sujeira, pobreza e falta de água
se misturam à violência, desrespeito
e pressão em relação
ao futuro. Em uma escola pública de
Manari, no sertão de Pernambuco, a
desmotivação é geral.
A região, uma das mais pobres do Brasil,
abriga escolas precárias onde a ausência
de alunos e professores é rotina.
Os poucos estudantes que mostram algum interesse
em aprender não escondem a decepção
quando descobrem que terão que voltar
para casa por causa da ausência do
professor.
Entre os alunos interessados, Valéria,
de 16 anos, aparece. E é ela quem
dá um toque encantador ao filme. O
talento da garota está na arte de
fazer poesias. Em meio a tanta miséria,
suas declarações soam como
um alívio para a alma. Vinícius
de Moraes, Manuel Bandeira e Carlos Drummond
de Andrade estão entre os autores
favoritos da aluna. O hábito da leitura
e a qualidade dos textos provocam desconfiança
nos professores, que não acreditam
na autoria das redações de
Valéria. Seu sonho é fazer
um curso superior de turismo ou relações
internacionais.
Em outra escola pública situada em
Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, os sonhos
também existem. As aspirações
vêm das organizadoras no Núcleo
de Cultura da Escola, que acreditam no progresso
dos adolescentes por meio da arte. Nas oficinas,
teatro e dança embalam os alunos.
Na rua, a poucos metros da escola, o tráfico
de drogas abastece outros. É nessa
escola que a câmera tem permissão
para acompanhar uma discussão de conselho
de classe em torno do destino de um aluno.
Passar ou não de ano?
Quando filmou em São Paulo, o diretor
do documentário resolveu ultrapassar
os muros de dois lugares: uma escola particular,
no Alto de Pinheiros, e outra pública,
no interior do estado, em Itaquaquecetuba.
As inquietações típicas
da adolescência são comuns e
independem do local. O dia-a-dia não.
Enquanto a pressa de saber o que se deve
ser profissionalmente aflige os estudantes
elitizados, o convívio com a violência
angustia os jovens e professores de Itaquaquecetuba.
Na realidade, o sensível documentário
mostra que no cotidiano os problemas no sistema
educacional estão muito além
das fronteiras que separam as escolas. E
que o dia feliz do título ainda está muito
longe de nascer.