Crítica:
Por Gustavo Mayrink

Entre os diversos prêmios que o diretor Lee Daniels tem recebido por seu Preciosa - Uma História de Esperança, o mais importante ele ainda carrega no bolso. Mais precisamente em seu telefone celular, que tocou quando Daniels subia ao palco para receber o Grande Prêmio do Júri no prestigiado Festival de Sundance, no início do ano passado: uma mensagem de Oprah Winfrey. Emocionada com o que assistira alguns dias antes, a badalada apresentadora de TV queria se associar ao diretor para divulgar e promover Preciosa, uma história com enredo tão violento e dramático como os casos que ela costuma mostrar em seu polêmico talk show. Mudava-se ali a trajetória de uma produção de característica independente para um filme bajulado, com direito a ampla exposição na mídia e seis indicações ao Oscar.

Na trama que chega esta semana aos cinemas, Claireece "Precious" Jones (Gabourey Sidibe, em promissora estreia) é uma adolescente do Harlem, o bairro negro de Nova York, no final dos anos de 1980. Apesar da voz poderosa e do nome de diva, ela leva uma vida profundamente solitária e angustiante. É espancada e humilhada pela mãe (em grande e paradoxal atuação da comediante Mo'Nique), além de ser zombada pelos garotos do bairro e da escola. Semianalfabeta, tem obesidade crônica e está grávida de seu segundo filho, fruto de mais um estupro do pai alcoólatra que ela nunca vê, mas que a deixa eternamente marcada. Mesmo assim, como a maioria das meninas de 16 anos, ela ainda consegue sonhar. Quer ser capa de revista, estrelar videoclipes e ter um namorado branco com cabelo legal.

Após ser expulsa do colégio onde mal aprendera a ler, Precious é encaminhada a uma instituição de ensino alternativa por intermédio da Srta. Weiss, uma assistente social interpretada com eficiência pela cantora pop Mariah Carrey, quase irreconhecível. Na nova escola, onde "cada um ensina um", Precious encontra um ambiente menos hostil, porém igualmente desafiador. Assim como ela, suas novas companheiras de classe também se sentem marginalizadas, já que são imigrantes, ex-viciadas em drogas e homossexuais.

Inspirado no livro Push (1996), único romance da poeta e artista performática Sapphire – e lançado apenas este ano no Brasil com o título de Preciosa –, o filme de Lee Daniels apresenta um retrato amargo e cruel de parte da sociedade americana. Sua narrativa realista, baseada nos relatos que Sapphire colheu quando era professora, permitiu improvisos pelo elenco basicamente feminino, valorizando o trabalho das principais atrizes, todas em convincentes performances.
Na exclusão social passará o fio de esperança que unirá Precious às amigas em busca de uma vida mais digna, tarefa conduzida com delicadeza pela Sra. Rain (Paula Patton), dedicada professora que as ensinará a juntar letras para tentar reescrever seus destinos, por mais tortos que estejam traçados.

Preciosa - Uma História de Esperança (Precious: Based on the Novel Push by Sapphire, EUA, 2009, 109 minutos). Direção: Lee Daniels. Com Gabourey Sidibe, Mo'Nique, Rodney Jackson, Paula Patton, Mariah Carey.

 

 

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