Cartão-postal da cidade de São Francisco, nos EUA, e obra-prima da engenharia, a Golden Gate Bridge, construída em 1937 é a segunda maior ponte suspensa do mundo. Fascinados pela beleza e imponência do monumento, turistas do mundo todo passam por ali, registram fotos e contemplam a deslumbrante paisagem da baía com a famosa ilha de Alcatraz ao fundo.
Esse foi o cenário escolhido pelo diretor Eric Steel para realizar seu polêmico documentário A Ponte . Durante todo o ano de 2004, ele filmou os transeuntes que percorriam os sete quilômetros de extensão da Golden Gate. Seu foco não eram os turistas deslumbrados com a paisagem, e sim, os possíveis "jumpers", aqueles que pulariam da ponte, ou sejam, os suicidas.
Com esse tema mórbido e perturbador, Steel ficou fora dos principais festivais de cinema do mundo, como Cannes e Veneza, que não aceitaram seu filme na lista dos candidatos. Também foi acusado de sensacionalista, de aproveitar as cenas chocantes para obter repercussão.
A Ponte não é um reality show , mas exatamente o que seu gênero representa: um documento, que explora, por meio da câmera, a realidade. E, neste caso, de um assunto incômodo para as autoridades americanas, que não gostaram nada do resultado das filmagens.
Para conseguir autorização para seu projeto, Steel teve de mentir e dizer que o filme pretendia retratar a interação da ponte com o cenário natural que a rodeia. Assim instalou uma câmera fixa, com ângulo amplo, em que um operador só trocava de fita quando essa acabasse. A outra câmera foi equipada com uma lente potente, que captasse em close as pessoas andando pela passarela.
Nesta segunda câmera que estava o verdadeiro desafio dos realizadores, já que o câmera escolhia apenas por seus instintos quem escalaria o parapeito da ponte para se atirar. "Estabelecemos diretrizes quando iríamos apenas observar e quando deveríamos intervir", afirmou o diretor.
Steel ainda ressaltou que o número do telefone da guarda costeira estava em todos os celulares dos envolvidos nas filmagens. "Se alguém pusesse no chão uma mochila ou maleta ou tirasse o sapato ou a carteira ou fizesse movimento de subir no parapeito, ligávamos imediatamente, pois salvar uma vida era mais importante a obter o filme".
Assim, dos 24 suicídios que aconteceram no ano de 2004, seis deles estão retratados no documentário, apoiados com entrevistas dos parentes e amigos das vítimas e pessoas que estavam perto do local. Steel afirma que sua equipe obteve sucesso em impedir seis outras tentativas.
A idéia de fazer um documentário sobre suicídio na ponte surgiu quando o diretor leu um artigo assinado por Tad Friend, na New Yorker, em abordava uma espécie de atração fatal que a ponte exercia sobre as pessoas que queriam acabar com suas vidas, já que o local, segundo o artigo, é o mais escolhido do mundo para o ato.
Sem dados oficiais sobre índices em pontes e outros pontos turísticos, é sabido que a queda-livre da Golden Gate, de mais de 60 metros , somada ao impacto, já que é possível atingir uma velocidade de cerca de 200km/h e afundar cerca de 8 metros , mais a forte correnteza, é quase certo fatal. O que, por um lado, justificaria a grande opção dos desesperados.
Mesmo assim, Steel entrevista um sobrevivente, que arrependeu-se durante os quatro segundos de queda, conseguiu virar o corpo e cair de pé, minimizando o impacto, e ainda agarrou-se a uma foca para conseguir boiar antes de ser resgatado.
Cercada muitas vezes pela névoa ou revelando um céu muito azul em contraste com o laranja de seus ferros, a Golden Gate oferece um cenário inebriante. Assim, explorando poeticamente a paisagem, com uma trilha sonora bem selecionada, Steel parece tentar trazer a discussão sobre o tênue espaço entre vida e morte.
Mas a condução de suas entrevistas não segura uma abordagem muito reflexiva e filosófica sobre o suicídio. Ali estão vítimas distúrbios mentais graves, como esquizofrenia, transtorno bipolar e depressão. Todos parecem se unir em um só remate: acabar com o sofrimento. Steel não revelou almas atormentadas sem causa, ao menos, que não fossem cientificamente justificadas. Talvez, para isso precisasse de mais tempo e pesquisa.
Em meio ao fervor das manifestações contra o filme, ele ainda explicou que o documentário pretende iniciar um debate para a criação de uma barreira anti-suicídio na ponte. Longe de sensacionalismo, o filme traz apenas uma parte pequena de uma das inquietações humanas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), que criou um Dia Internacional de Prevenção do Suicídio, cerca de 1 milhão de pessoas por ano em todo o mundo acaba com a própria vida, o que representa uma morte a cada 40 segundos, mais que o número de homicídios.