Crítica:
Por Josafá Crisóstomo
O desejo de levar ao cinema o trabalho de uma das mais importantes coreógrafas do século XX nasceu da profunda impressão e comoção que Wim Wenders experimentou ao entrar em contato com Café Müller, obra de Pina Bausch de 1978. Isso ocorreu quando ele assistia a uma retrospectiva do trabalho da bailarina apresentada em Veneza, em 1985. O curioso é que foram necessários muitos anos para que esse projeto se realizasse, pois, tanto para o diretor de Asas do Desejo quanto para a coreógrafa, não havia ainda um meio de traduzir a riqueza dos movimentos e expressões desse trabalho na tela de cinema, ou seja, faltava-lhes o como tornar isso possível.
Curiosamente, foi a descoberta do 3D como possibilidade de viabilização de tal projeto o que permitiu que o diretor e a própria Pina Bausch selecionassem, juntos, parte do repertório da artista para esse registro cinematográfico de sua obra. No entanto, ela não pôde concluí-lo em parceria com o diretor, uma vez que veio a falecer repentinamente em 2009, apenas um ano após o projeto conjunto começar a ganhar contornos mais definidos. Win Wenders, então, quase desistiu do mesmo e só o levou a termo por ter sido incitado, dentre outros, pelos próprios bailarinos da companhia Tanztheater Wuppertal Pina Bausch, a qual a coreógrafa dirigia e que tem sua sede em Wuppertal, na Alemanha. Aliás, muito natural e felizmente, essa foi a cidade escolhida para as locações do filme.
Para aqueles que conhecem o trabalho da artista, Pina, de Wim Wenders, soa também como um tributo merecido. No entanto, o filme vai além dessa esfera. Desde o início, o espectador é convidado a adentrar ao palco da dança bauschiniana em sua sede e partilhar das fortes emoções às quais esse trabalho suscita. Na primeira cena, uma jovem munida de um acordeão sugere um fio de partida ao descrever as sensações que os seres humanos sentem durante as passagens das estações, para que, então, todos os bailarinos adentrem em procissão, sugerindo tais sensações em repetidos gestuais, quando ainda circundam uma cortina transparente e que será também transpassada pelo espectador, graças ao fato de o filme ser em 3D. A partir de então, as câmeras que garantem tal recurso e que dançam juntamente com os bailarinos nos apresentarão cada coreografia em sua intimidade absoluta, quando como que seremos parte do filme que, também por isso, contará muito acerca de nós mesmos.
O filme se constitui de excertos das coreografias Café Muller (1978), A Sagração da Primavera (Le Sacre du Printemps, 1975), Lua Cheia (Vollmond, 2006) e Kontakthof (2008), e também com algumas poucas imagens de arquivo, cuidadosamente selecionadas, e nas quais Pina Bausch aparece: ora jovem ou idosa, sempre magnífica.
Além disso, temos performances individuais de alguns dos principais bailarinos da companhia, cada qual demonstrando o legado de sua criadora. Isso acontece a partir de um método de perscrutar o bailarino, tal como fazia Bausch, e que Wim Wenders adotou como recurso para a consolidação de um filme que fala todo ele dos mais íntimos e universais sentimentos, substancialmente por meio dos movimentos da dança. Isso se dá devido ao fato de que o legado de Pina Bausch é aquele que instaura a certeza de que as palavras apenas evocam as coisas e que, portanto, o recurso da dança transcende esse poder de comunicação que a palavra apenas almeja.
A genialidade de Pina Bausch em seu trabalho incansável, a considerar alguns dos depoimentos de bailarinos que com ela conviveram – alguns durante décadas –, consistia no saber que há situações que nos deixam sem palavras; na crença no desvendamento de bailarinos e de que trabalhava com anjos, no lugar de bailarinos; em ser alguém que dançava como se tivesse voltado dos mortos; que pensava na questão da honestidade na arte e, portanto, na responsabilidade do bailarino; que compreendia que o artista precisa enlouquecer na sua arte, revelando a força que reside na fragilidade, se isso for o que ele tem para oferecer. Daí que incitava seus bailarinos a continuarem procurando, que seguissem buscando ainda que sem saber onde, estando ou não na direção certa.
O filme de Wim Wenders é também essa busca conjunta, seja quando suas cenas se dão no interior do palco, seja nas locações exteriores: um jardim, mina, fábrica, na rua ou nos monotrilhos suspensos de Wuppertal. O filme é, por fim, uma busca bem sucedida, ao menos na dimensão em que se constitui, uma vez que convoca a força e a beleza dos corpos desses bailarinos, sempre em torno da exortação de Pina Bausch: “Dancem! Dancem ou estaremos perdidos!”