Crítica:
Por Geraldo Mayrink
Diz uma popular canção brasileira que eram cantoras do rádio e levavam a vida a cantar. Cantavam sim – mas aquilo que viviam nem sempre era vida. Piaf – Um Hino ao Amor não é exceção na paisagem que pinta o mundo como um território hostil às cantoras, muito diferente do espaço dos cantores, sempre mais gloriosos e sorridentes. Não se sabe por quê, mas as mulheres têm sido infelizes prisioneiras de vários males, do alcoolismo às drogas mais pesadas, de amores desfeitos a conflitos familiares. A lista impressiona pela quantidade delas.
Ficaram famosas, e não só pelas suas lindas vozes e aplausos do público mas também por suas tristezas, damas irascíveis como Rosemary Clooney (que insultava as platéias com palavrões), Judy Garland (que tinha lapsos de memória e desmaiava de tanto bater a cabeça nas paredes do estúdio), Peggy Lee (loura que teve infância de negra pobre), Billie Holiday (grande campeã no consumo de drogas), Eartha Kitt (voraz devoradora de homens), Maysa (que se escondia nos banheiros de boates para beber), Janis Joplin (que bebia em público mesmo, na praia, no gargalo), Dolores Duran (cujo coração, aos 29 anos, não resistiu aos ambientes viciados nos quais cantava), Marina Lima (que foi fazer meditação depois de espalhar uns versos dizendo “você precisa de um homem que seja seu, nem que este homem seja eu”) e Angela Ro Ro (que gargalha de tudo isso, com sua voz aflitivamente rouca). Dizem até que a grande Ella Fitzgerald nunca aceitou que seu marido, o contrabaixista Ray Brown, dissesse que os 120 quilos dela lembravam-lhe seu instrumento de trabalho. Todas grandes artistas, não moças de família do tipo que se convida à mesa.
É surpreendente
que só agora,
e com uma biografia que não faz feio à tradição
amarga firmada por todas as outras, a maior
cantora francesa de todos os tempos tenha
merecido um filme. Frágil, pequenina,
feia, Edith Piaf (1915-1963) nasceu na sarjeta,
a mãe a abandonou e apanhava do pai.
Foi criada num bordel, explorada por um cafetão,
e sua saúde era tão ruim que é um
milagre que tenha sobrevivido 47 anos, quando
um câncer enfim a matou.
Ficou
cega durante um período na infância,
tinha artrite, bebia e viciou-se em injeções
de analgésicos. Desmaiava no palco
mas fazia questão de sempre voltar à cena.
Casou-se duas vezes, mas seu grande amor,
o pugilista Marcel Cerdan (Jean-Pierre Martins),
morreu num desastre de avião. Foi
amante de Yves Montand e o mitológico
Jean Cocteau escreveu para ela uma peça,
Le Bel Indifférent.
Conviveu com
famosos como Charles Chaplin e Marlene Dietrich.
Aparentemente,
não “batia
bem” da cabeça. Segundo o diretor-roteirista
Olivier Dahan, ela intencionalmente criou um
mito e inventava coisas, principalmente para
jornalistas que engoliam histórias que
ainda hoje passam por verdadeiras.
Valia
a pena filmar uma história assim?
Valia, na opinião
do diretor: “Mesmo na decadência,
tudo estava lá, na sua voz estridente
e sua vontade de cantar e interpretar. Não
acredito no artista atormentado. Não
concordo que ser infeliz é pré-requisito
para ser um grande artista. Piaf teve momentos
felizes, quando menos se podia esperar”.
E seu filme,
talvez por esta fé,
seja feliz e bonito nas 27 canções
com a voz original de Piaf, entre estas as clássicas
La Vie em Rose e Non, Je Ne Regrette Rien. E
seria outra coisa sem a presença no papel-título
de Marion Cottillard (fotos), francesa vista
em filmes de diretores conceituados em Hollywood,
como Ridley Scott (Um Bom Ano) e Tim Burton
(Peixe Grande). Ela impressiona com sua figura
que parece quebrar-se ao menor toque, seus cabelos
vermelhos desgrenhados e sua garra para levar
a vida, a despeito de tudo.