Crítica:
Por Lúcia Helena Camargo

     Beijos, bilhetes apaixonados, sangue, viagens de metrô, mais beijos, alguns tapas, ironia, fantasia e a Torre Eiffel ao fundo. Um pouco de tudo isso em cada uma das 18 partes filme Paris, Te Amo, cada uma dirigida por um cineasta de visão e talento bem diferente dos demais.

     O resultado é um longa-metragem de pouco mais de duas horas, cuja unidade é o fato de que cada um dos pedaços é uma declaração de amor à capital francesa. Mas claro que alguns episódios são muito melhores do que outros.

     Delicada e tocante é Bastille, da espanhola Isabel Coixet (diretora do ótimo A Vida Secreta das Palavras, em cartaz na cidade), que mostra a descoberta de um sentimento dado como perdido em um casamento, tendo um casaco vermelho importante papel.

     Ela brinca com o banal e o trágico da vida, levando o protagonista a pensar sobre o ridículo de tomar uma decisão crucial comendo profiteroles. E ainda inclui a cheia de significados canção Le Tourbillon de La Vie, cantada por Jeane Moreau em Jules e Jim, de Truffaut.

     A parte dirigida pelos brasileiros Walter Salles e Daniela Thomas, Loin du 16e, é terna, e embora não sobressaia pela originalidade, tem o mérito de levar às platéias internacionais uma história universal sobre amor de mãe e desigualdade social, fatores que existem, em maior ou menor grau, em toda parte. Trata-se de Paris, mas poderia ser São Paulo, Bogotá, Nova York ou Adelaide.

     A moça pobre (Catalina Sandino Moreno) deixa seu bebê em uma creche pública e vai trabalhar bem longe de casa, como babá, cuidando e ninando a criança da patroa, como se fosse seu próprio filho.

     Porte de Choisy, de Christopher Doyle, é um emaranhado de cenas plasticamente fantásticas, mas esvaziadas de sentido. Beleza e exotismo também em Quartier de La Madeleine, de Vicenzo Natali, sobre um encontro entre o casal de vampiros. Mas o resultado soa altamente pretensioso.

     Já os irmãos Joel e Ethan Cohen fazem a média geral subir. Com Steve Buscemi no papel do turista americano desavisado, Tuileries é engraçado e surpreendente, cinema de primeira em poucos minutos. Em Parc Monceau, o badalado Alfonso Cuaron também consegue surpreender.
E a ironia dá o tom em Quartier Latin, dirigido por Fréderic Auburtin e Gérard Depardieu, que filmaram um inusitado acerto de contas. Tampouco passa despercebida a participação de Gus Van Sant. Em um ateliê de gravuras no Marais, bairro de artistas que dá nome ao episódio, um rapaz declara-se, num rompante.

     Amor à primeira vista. O outro se mostra impassível em razão de uma impossibilidade na comunicação. Mas talvez não impeça a união das almas gêmeas unidas pelo acaso.

     Sylvain Chomet , que tem no currículo As Bicicletas de Belleville, parte do símbolo mais famoso da cidade. Em Torre Eiffel, lança mão do lúdico para contar a história de amor entre mímicos.

     Há ainda belas seqüências de cineastas pouco conhecidos, como o triste e intenso Place de Fête, de Olivier Schmitz, sobre uma paramédica africana e um músico esfaqueado na rua.

     E é bom prestar atenção em Gurinder Chadha, nascida no Quênia e naturalizada inglesa, que em Quais de Seine, ao mostrar um incipiente namoro entre uma jovem muçulmana e um adolescente britânico, faz uma ode a um mundo sem segundas intenções ou falsidades, sem sexualidade recalcada ou culpa religiosa. Parece dizer que ainda é possível viver sendo 100% autêntico, simples e natural. Pelo menos em Paris.

 

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