Crítica:
Por Erika Corrêa

Imagine uma época em que os comissários de bordo eram apenas aeromoças belas e sofisticadas que serviam em pratos de porcelana, taças de cristal e talheres de prata. Os aviões possuíam poltronas confortáveis, assentos realmente reclináveis e espaço de sobra para as pernas. Este cenário, distante da atualidade, faz parte da história do Brasil e é mostrado no documentário Panair do Brasil, de Marco Altberg.

O filme conta a trajetória da companhia aérea pioneira na aviação comercial brasileira, fundada em 1930, e que se tornou o símbolo do emergente progresso do país.

Com narração de Paulo Betti e música de Milton Nascimento e Fernando Brant, na voz de Elis Regina, Panair do Brasil aborda todo o glamour e aventura que significava voar naquela época, e se estende ao trágico desmantelamento da empresa em 1965, após o golpe militar.

Com um formado simples, o longa-metragem (70 minutos) mescla imagens de arquivos das imponentes aeronaves Lockheed Constellations e Douglas DC-8 com depoimentos de ex-funcionários, comandantes, aeromoças e passageiros, em um trabalho de pesquisas que levou nove anos. 

Em 1946, a Panair iniciou seus vôos transoceânicos fazendo a conexão da América do Sul com a Europa, África e Oriente Médio. As dificuldades dos pilotos ao enfrentar tempestades, sem radar, com uma cabine que ficava cheia de gelo por dentro devido à altitude e a precária tecnologia da aeronave são algumas das boas curiosidades contadas no filme, assim como, seus diversos pousos pela Amazônia e a assistência que os funcionários prestavam às comunidades indígenas.

A segunda metade de exibição, no entanto, é dedicada à problemática do fechamento da companhia, quando suas concessões de vôo foram cassadas pelo governo Castelo Branco.

Em um processo jurídico questionável, o filme detalha através dos depoimentos, a arbitrariedade da decisão, que passou de concordata preventiva em apenas três dias à falência. Hangar vazio, leilões de aeronaves, funcionários desempregados do dia para a noite. Apenas a Celma, infra-estrutura de telecomunicações aeronáuticas manteve-se em pé.

O filme sugere que houve favorecimento à companhia Varig que passou a operar as rotas da Panair, além do interesse político em prejudicar o grupo Miranda-Simonsen (Mário Wallace Simonsen e Celso Rocha Miranda), que desde 1961 era majoritário das ações da companhia e apoiava a frente contrária ao governo militar.

Pena que não tenha dado voz a algum especialista da área da aviação que não tivesse sido ligado à companhia, sustentando assim a isenção da pesquisa.

O longa funciona como um imperativo questionamento da História, muito mais do que um documentário com caráter de apenas exposição de fatos. Não deixa de ser provocativo. Resta saber se terá força suficiente para reascender tal discussão, amortecida pelo tempo.

 

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