Crítica:
Por Lúcia Helena de Camargo
Bela estréia desta sexta (29), Os Desafinados (Brasil, 2008, 131 minutos) começa e termina no calçadão de Copacabana, no Rio de Janeiro. Presta tributo a Tom Jobim e à Bossa Nova. Amarra diversos elementos da realidade em uma ficção que cativa e encanta, contando a história dos músicos Joaquim (Rodrigo Santoro), Davi (Ângelo Paes Leme e Genésio de Barros, na segunda fase), PC (André Moraes/ Antônio Pedro), Geraldo (Jair Oliveira/ Bené Silva) e do cineasta Dico (Selton Mello Arthur Kohl).
É final dos anos de 1960. Jovens, talentosos e cheios de energia, o quarteto Os Desafinados tenta a sorte em Nova York, onde conhece Glória (Cláudia Abreu), incorporada como a vocalista do grupo. Uma história de amor apimenta a trama: o pianista Quin (Santoro) divide-se entre a paixão pela cantora e a devoção pela mulher, Luiza (Alessandra Negrini).
O diretor Walter Lima Jr. revelou algumas de suas fontes de inspiração, a começar pelos nomes dos personagens: Joaquim é homenagem ao cineasta Joaquim Pedro de Andrade; Davi é de Davi Neves, e PC, Paulo César Saraceni, todos colegas de Lima Jr. no Cinema Novo. E Geraldo, o baixista, é referência ao compositor Geraldo Pereira.
Entre as cenas baseadas em acontecimentos reais está aquela de Quin em Buenos Aires, que relembra o trágico episódio ocorrido com o pianista Tenório Jr., gênio musical sem qualquer vinculação política, que sai à noite para comprar cigarros na capital argentina, durante o Golpe Militar de 1976. E nunca mais voltaria. Confundido com um militante político, foi torturado e morto.
Com ótimas atuações, cuidado técnico traduzido em imagens impecáveis, Os Desafinados é uma delícia de se ver. Nenhuma seqüência parece estar ali por acaso. Tudo faz sentido. E a música é de primeiríssima qualidade. Na tradução do diretor, “Não é um filme sobre a bossa nova, mas um filme bossa nova.” De fato. Sem nenhuma nota fora do lugar.