Crítica:
Por Josafá Crisóstomo
Esse é o primeiro longa-metragem do diretor canadense Sébastien Pilote, mas podemos dizer que se trata de uma estreia muito consistente.
O que se conta fundamentalmente é a vida do protagonista, Marcel Lévesque (Gilbert Sicotte), um senhor de 67 anos e vendedor de carros em uma concessionária de automóveis. Ele não é como qualquer outro funcionário da loja, pois tem mantido o título de melhor vendedor do mês há 16 anos!
O pano de fundo dessa história são dois problemas muito contemporâneos: a crise econômica que gera o desemprego em massa, tendo como consequência o desespero para muitos trabalhadores e o desconcerto climático que, por exemplo, faz o inverno ser extremamente rigoroso na cidade industrial de Lac Saint-Jean, região do Quebec – maior província do Canadá – e que no filme aparece em franco declínio econômico e social.
Ambas as circunstâncias são demarcadas pela contagem do tempo em que a fábrica local fica parada, deixando em apreensão, por mais de 250 dias, os empregados que ainda não foram dispensados. É isso o que o filme nos mostra em intervalos: operários se revezando em frente à fábrica de papéis, marcando em uma placa o número de dias que passam ali, expostos ao frio.
Mas o senhor Lévesque não se deixa abater. Mesmo com a queda vertiginosa das vendas de carros, ele se manterá no topo, sempre, como o melhor vendedor do mês, além de também ser o amigo querido de todos e que distribui refrigerantes todos os dias, impreterivelmente, para os mecânicos da manutenção. Aliás, o filme equilibra momentos de tensão contida, com verdadeiras lições de vida desse homem determinado, que é um bom pai e um excelente avô.
Sua filha Maryse (Nathalie Cavezzali), por sua vez, é da opinião que ele já deveria ter se aposentado. No entanto, ele, viúvo, diz que sem a esposa isso não faz sentido. Já seu neto, Antoine (Jeremy Tessier), manifesta o desejo de quando crescer ser também um vendedor como o avô. Então, Lévesque lhe descreve as principais características que lhe permitirão ser o melhor na profissão: gostar das pessoas e com elas se preocupar. Acerca dessas pessoas, ele diz: “Você precisa olhar em seus olhos. Se você olha em seus olhos, você olha para suas almas”.
Uma cena bonita ocorre quando o avô também ensina para o neto a oração Pai
Nosso. Como um quebequeano típico, ele é católico e acredita que é preciso, sim, pedir a Deus para se ter a sorte de os clientes aparecerem. A criança repete pelo menos duas ou três vezes o trecho “comme nous pardonnons à ceux qui nous ont offensés” [Como nós perdoamos a quem nos tem ofendido]. Aqui há, muito sutilmente, na demonstração da dificuldade da criança para repetir o trecho original em francês da oração, também a oportunidade para evocar uma outra dificuldade: a da própria ação sugerida nessa passagem e que qualquer um pode experimentar.
O clima de tragédia iminente se intensifica durante o filme, uma vez que temos nevascas intermitentes e o acúmulo do branco dominando a paisagem. Toda essa neve sobre os carros e as ruas impõe uma rotina da qual não se pode fugir: a retirada diária desse peso que encobre as superfícies. O mesmo se dá no dia a dia do vendedor, que é feito de um exercício constante de paciência, abnegação e coragem. Algo muito necessário, sobretudo nos momentos de crise profunda. Lévesque consegue vivenciá-lo, mesmo quando experimenta sofrimentos os mais atrozes, é que ele criou o sentido da sua vida em torno dessa exemplar atuação profissional. Mesmo que não possamos de todo alcançar esse sentido profundo, tampouco poderemos menosprezá-lo.