Crítica:
Por Lúcia Helena de Camargo

Desejar vingança contra quem lhe fez mal pode não ser a mais cristã das atitudes, mas está arraigada no cerne do ser humano. Inútil negar. A vontade de fazer sofrer o homem que estuprou e matou sua mulher é o motor de Ricardo Morales (Pablo Rago) em O Segredo dos Seus Olhos. Mesmo depois de 25 anos, ele segue seu intento.

O oficial de justiça Bejamin Espósito (Ricardo Darín) não apenas entende o sofrimento como admira a total entrega de Morales. Chamado para o caso nas primeiras horas, ele vê o corpo nu da garota de 23 anos assassinada. E jamais esquece. O crime acontece em Buenos Aires, em 1974, época pré-ditadura, durante o governo de Isabelita Perón.

Assumindo o papel de investigador e contando com a ajuda algo atrapalhada de seu colega Pablo Sandoval (Guilhermo Francella), Espósito vai buscar o culpado lançando mão de métodos variados – alguns pouco ortodoxos, como sorrateiramente remexer em gavetas da casa da mãe do suspeito. Mas será observando fotos antigas que começará a encontrar a chave para o problema. Some-se ao imbroglio o fato de que ele é apaixonado por sua chefe, a juíza Irene Menéndez Hastings (Soledad Villamil) e não encontra jeito de declarar-se. "Eu planejo mil discursos para dizer. Ela entra pela porta e eu esqueço tudo", confessa ao amigo que o incita a fazer uma investida em direção à moça.

O Segredo dos Seus Olhos explora com delicadeza a questão do amor total, em estado bruto, como o sentido pelo marido, e sua dedicação integral à memória da esposa – por pura falta de interesse em qualquer outro aspecto do mundo. E caminha bem pelo tema dos desencontrados, como o de Espósito e Irene.

Os cenários traduzem as nuances dos estados de espírito dos personagens. Algumas sequências abusam das cenas excessivamente escuras, talvez para invocar almas atormentadas. Proposital ou não, o recurso provoca certo incômodo no espectador. Mas há espaço ainda para momentos cômicos, estrelados por Francella, que é do ramo do humor.

Dirigido pelo argentino Juan José Campanella, o longa é baseado no romance policial de Eduardo Sacheri. Indicado ao prêmio Oscar deste ano na categoria de melhor filme estrangeiro, ganhou os prêmios de público e de crítica no festival de Havana, além de direção, ator e trilha sonora para Federico Jusid. O diretor tornou-se conhecido no Brasil pelo ótimo O Filho da Noiva, também com Darín, seu protagonista preferido.

A bilheteria do filme foi uma das maiores dos últimos tempos na Argentina, chegando a US$ 2,5 milhões. Isso não significa necessariamente que o cinema argentino está muito melhor e mais forte. Deve-se mais ao talento de Campanella, que sabe contar uma história. Assim como um bom filme de Walter Salles não sinaliza que o cinema brasileiro está no rumo certo. Porque, infelizmente, por aqui longas nessa faixa de arrecadação são da linha Se Eu Fosse Você.

O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de sus Ojos, Argentina / Espanha, 2009, 127 minutos). Direção: Juan José Campanella. com Ricardo Darín, Soledad Villamil, Pablo Rago, Javier Godino, Guillermo Francella

 

 

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