Crítica:
Por Geraldo Mayrink

     Em 1848, no seu Manifesto do Partido Comunista, Karl Marx escreveu que na sociedade burguesa o passado domina o presente. Num gigantesco salto no tempo, Hector Babenco disse em 2007: "Chega de excluídos, de terceiro mundo. Acabou. Agora vou cuidar de algo que para mim é crucial, que é a relação amorosa".

     Assim, fundindo estes dois pensamentos, de filosofia política e escolha existencial, O Passado é uma história de amor, ou de amores defuntos. O profeta barbudo e o cineasta consagrado com Pixote (crianças excluídas), O Beijo da Mulher Aranha (homens excluídos) e Carandiru (presidiários excluídos) se dão as mãos pelos misteriosos caminhos da arte.

    O recurso à memória (passado) tem sido uma fonte de vida para muitos criadores, entre eles os cineastas. Que ninguém duvide das palavras de um deles, o grande Jean Renoir, para quem só valeram a pena ser vividas aquelas coisas das quais podemos nos lembrar.

     Veja-se o caso do casal mostrado neste filme envolvente, delicado e estranho. O tradutor de inglês e francês Rimini (nome da cidade onde nasceu um grande memorialista das telas, Federico Fellini), interpretado por Gael García Bernal, e Sofia (Analía Couceyro) desfazem, educadamente, um casamento de 12 anos.

     Ele passa a namorar a modelo Vera (Moro Anghileri), que vê Sofia beijando Rimini à força e foge em desvario pela rua, morrendo atropelada. Então ele se casa com Carmen (Ana Celentano), sua parceira em traduções, tem um filho e uma espécie de amnésia o ataca, tornando-o monoglota.

     Mas Sofia, o passado, continua presente, seqüestra o bebê por algumas horas e arrasta Rimini a um hotel, querendo ter relações sexuais com ele. Ela parece louca e diz ao ex-marido: "O que vai ser de ti quando eu estiver morta? Quem vai te olhar? Eu sou a luz que te ilumina, se eu paro de te olhar você está morto".

      Despojado de seu instrumento de trabalho, o conhecimento de línguas, Rimini vai trabalhar numa academia de ginástica, torna-se amante de uma ricaça grosseira. É Sofia quem paga a fiança para tirá-lo da cadeia. Ela agora é líder de um certo instituto Adele H., que reúne "mulheres que amam demais".

      Sofia acredita no poder da memória no reencontro de casais e leva Rimini ao instituto. No entanto, ele se interessa por uma desconhecida e, de repente, recupera o seu conhecimento de línguas.

      Estas são apenas algumas cenas pinçadas do calhamaço de quase seiscentas páginas do argentino Alan Pauls, filmadas em Buenos Aires. "A história que me interessou estava encravada no livro como uma pedra que você parte ao meio e vê um pequeno fóssil que vai tentar desencavar para poder extirpá-lo da forma mais genuína possível e jogar o resto fora", diz Babenco.

      Mas não é também assim, em flashbacks inconscientes, que funciona a memória? Assim, o cineasta brasileiro nascido na Argentina acabou fazendo seu primeiro filme falado em espanhol. A produção, sem luxos, é competente e reforçada pelo elenco, no qual o único brasileiro, num adeus, ou adieu, é Paulo Autran em rápida aparição falando francês.

      Marcel Proust, o imperador da memória literária, disse que a recordação faz-nos respirar de repente um ar novo, e que os verdadeiros paraísos são os que já perdemos. Não é bem o caso de Babenco, que não perdeu nenhum paraíso, mas ganhou a sobrevivência.

      Se há muitas reminiscências nos seus filmes, ele atribui ser o que é a elas. Anos atrás, estava morrendo de câncer linfático, mas salvo por um transplante, está de olho bem vivo no seu próximo filme, O Mar, que tratará – adivinhem de quê – de memória. Será a história de um homem que volta à praia onde cresceu e onde se lembra de um verão em que teve uma experiência amorosa que o marcou para sempre.

 

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