Crítica:
Por Erika Corrêa
Ao longo dos anos o cinema lançou atores que se tornaram astros venerados e, que após alguns filmes de sucesso, caíram no esquecimento do público e dos diretores. Alguns não se reergueram mais, outros, depois de anos, voltaram ao estrelato.
Jonh Travolta, por exemplo, nos anos setenta brilhou com os sucessos Os Embalos de Sábado a Noite e Grease, Nos Tempos da Brilhantina, caiu no ostracismo e só foi “ressuscitado” no final dos anos noventa pelo diretor Quentin Tarantino, em Pulp Fiction.
Mas a carreira de nenhum ator parece mais mutável do que a de Mickey Rourke, vencedor do Globo de Ouro e indicado ao Oscar neste ano como Melhor Ator, pela sua atuação em O Lutador, de Darren Aronofsky (vencedor do Urso de Ouro em Berlim).
Rourke iniciou a carreira com ótimas atuações em filmes como Corpos Ardentes (1981) e O Selvagem da Motocicleta (1983). Tornou-se símbolo sexual após seu personagem em 9 semanas ½ de Amor (1986), e após Coração Satânico (1987), não ganhou mais bons papéis. Temperamental, Rourke dava problemas nos sets, e levou fama de um ator difícil de ser dirigido.
Em 1990 chegou a receber indicação ao troféu Framboesa de Ouro, na categoria de Pior Ator, por Horas de Desespero. Assim, decidiu se dedicar a outra profissão: boxeador profissional. As lutas lhe deixaram inúmeras seqüelas (quebrou o nariz seis vezes, costelas, face), passando por sucessivas cirurgias plásticas. As desastradas intervenções colocaram o ator ao lado do cantor Michael Jackson, como mais um famoso deformado e bizarro.
Foi então que o diretor Darren Aronofsky, reconhecido pelo seu excelente filme Requiem para um Sonho (2000) indagou se Rouke gostaria de fazer um papel realmente que valesse a pena e se orgulhasse no cinema.
Assim, Mickey Rourke aceitou e compôs o personagem Randy “O carneiro”, um lutador da modalidade luta livre, que viveu seu auge nos anos oitenta e agora está decadente e calejado fisicamente. Dá para entender por que Rourke afirma que o filme é: “muito dele mesmo”.
Randy tem uma difícil relação com a filha e um envolvimento com uma stripper (Marisa Tomei, indicada a atriz coadjuvante no Oscar). Vive em um trailer e sobrevive com o salário do trabalho em um frigorífico e de lutas amadoras nos finais de semana.
Assim Aronofsky abdicou dos efeitos especiais mirabolantes de seu último filme Fonte da Vida (2006/fracasso de bilheteria) e se debruçou em um drama humano. Com uma história simples e convencional, o filme é muito mais a atuação de Rourke e sua direção. Todas as lutas, ele fez questão de treinar e participar de verdade e o resultado é eletrizante e muitas vezes chocante.
A trilha é repleta de rock dos anos oitenta com bandas como Scorpions, Quiet Riot e Guns’n’Roses, essa última, que não por acaso teve seu auge de sucesso nessa época, um vocalista conturbado e brilhante, que brigou e se desligou do grupo e levou 14 anos para lançar um novo disco. Todavia,
O Lutador não traz a trilha do novo disco de Axl Rose
Chinese Democracy, mas dos antigos hits. Assim como o próprio Randy comenta com a amiga stripper em uma conversa de bar: “Os anos oitenta foram os melhores e as melhores bandas, maldito Kurt Cobain e o grunge que levou isso embora”.