Crítica:
Por Erika Corrêa

     O caixeiro viajante Zé Araújo (Marcos Palmeira) é um homem boêmio e vive atrás de um rabo-de-saia pelos bordéis e cabarés nordestinos por onde passa. Na pequena cidadezinha de Jardim dos Caiacós conhece a turca quarentona Dualiba (Lívia Falcão) em um forró pé de serra.

Após uma noite com fogosa quarentona, Zé Araújo entra em uma grande enrascada: ela era virgem e a desonra só é perdoada pelo pai da moça com o casamento.
Assim, o caixeiro deixa a estrada para trás e vai trabalhar no armazém do sogro (Renato Consorte). Com o passar do tempo, Zé Araújo torna-se cada vez mais submisso ao patrão autoritário e a esposa, que se mostra uma insaciável amante.

Um dia ele descobre que seu servilismo virou motivo de chacota entre os moradores. Em um surto de ira quebra a loja do sogro, dá uma surra na esposa e pede para o tabelião rebatizá-lo de Ojuara (Araújo ao contrário).

Esse é o nascimento de um novo herói nordestino, que vai seguir seu caminho sertão afora montado em um cavalo, conquistando corações e se metendo nas mais incríveis aventuras, como até um inesperado encontro com o diabo.

Baseado no livro "Pelejas de Ojuara", do potiguar Nei Leandro de Castro, O Homem que Desafiou o Diabo é uma produção de Luiz Carlos Barreto e tem como diretor o também potiguar Moacyr Góes, que assina o roteiro ao lado de Bráulio Tavares.
Somado a Globo Filmes dá para perceber que se trata de um filme de investimento alto. Levou cinco anos para ser finalizado, teve publicidade estrondosa e, infelizmente, o resultado deixa a desejar.

Transpor para o cinema um texto literário, neste caso, literatura de cordel, onde o escritor cria um herói picaresco, não é uma tarefa das mais fáceis. O vocabulário coloquial, repleto de prosódia nordestina, algumas não mais usadas, submerge com a fala dos personagens.

Marcos Palmeira tem carisma de novela da Globo, só. Não consegue, aqui, se tornar um herói genuíno, como parece ser a proposta do personagem Ojuara.

Apesar também do esforço cenográfico, que aproveita as belas paisagens do sertão do Rio Grande do Norte, as passagens fantásticas da história perdem para a leitura, que pode nos proporcionar uma qualidade imbatível: a da imaginação. O filme perde a anedota, cai nos mesmos erros do filme O Coronel e o Lobisomem/2005, também uma adaptação de romance.

A boa atuação fica para o estreante Heder Vasconcelos, que faz o papel do diabo.
E também nova na tela é Fernanda Paes Leme, que faz a prostituta Genifer. De resto, diversos atores famosos como Antônio Pitanga, Sérgio Mamberti, Flávia Alessandra, Otto Ferreira, Leandro Firmino da Hora. A trilha inclui artistas de peso como Gilberto Gil, passa pelo forrozinho do grupo jovem Falamansa e traz ainda Sidney Magal, dentre outros.


Conhecer um pouco do universo cultural do Rio Grande do Norte vale muito a pena, mas prefira, assim, debruçar-se sobre as páginas do livro.

 

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