Com
seu primeiro livro lançado em 1955,
o escritor de ficção-científica
Philip K. Dick, traduzido em mais de 25 idiomas,
se tornou um ícone no cinema, com
diversas de suas obras futuristas adaptadas
para a telona. Blade Runner, Caçador
de Andróides, por exemplo, se tornou
um cult dos anos oitenta. Depois vieram boas
adaptações como O Vingador
do Futuro (1990) e Minority Report (2002),
dentre outras.
Aqui,
o livro A Scanner Darkly, editado em 1977,
ganha versão cinematográfica nas mãos do
diretor Richard Linklater (A Escola de Rock/2003),
com o título O Homem Duplo. A historia inspirada
na própria experiência de Dick com anfetaminas,
causou grande estranhamento na época. Hoje,
a trama não parece tão surreal ao se comparar
com as vigentes políticas de controle às
drogas, a constante vigilância que acerca
os cidadãos após o aumento dos atentados
terroristas e a diversidade química e potente
de substâncias entorpecentes que se proliferam
no mundo moderno.
Menos
talhado na fantasia, o Homem Duplo debruça-se
em uma ficção bastante verossímil,
até porque quando o filme se inicia
uma legenda anuncia: “daqui a sete
anos” – não se trata de
um futuro longínquo. A maior parte
da “viagem-tecnológica” vem
do processo de filmagem escolhido pelo diretor,
conhecido rotoscopia interpolada.
Primeiro
o filme foi realizado com os próprios
atores, e só depois de completamente
pronto, passou por uma técnica de
animação. O mesmo método
já havia sido usado por Linklater
em seu filme Waking Life (2001). O resultado é uma
espécie de graphic novel, mas sem
ter desenhos criados em computador intercalados.
É bastante
interessante reconhecer a face de astros
como Keanu Reeves e Winona Ryder, que estão
no elenco, em personagens animados. Alguns
cenários ficam tão perfeitos
com essa técnica que em algumas instantes
do longa dá para pensar que a animação
deu lugar a imagens reais.
E
neste cáustico
mundo animado, está um
departamento de polícia que tenta
combater o tráfico de drogas. O policial
disfarçado Fred (Keanu Reeves) segue
ordens para começar a espionar seus
amigos, Jim Barris (Robert Downey Jr.), Ernie
Luckman (Woody Harrelson), Donna (Winona
Ryder) e Charles Freck (Rory Cochrane). No
entanto, ele acaba por se viciar em uma poderosa
droga da moda: a “Substância
D”, que o faz questionar até sua
verdadeira identidade.
Em
sua jornada paranóica
acaba por se perguntar se ele mesmo não
seria o traficante Bob Arctor, que tenta
capturar.
Afinal, Fred é um policial infiltrado
nos bandidos ou Arctor é um bandido
infiltrado na polícia? Ou será que
tudo isso não passa de um produto
de sua imaginação ativada pelas
drogas?
Os diálogos
irônicos e até cômicos
em alguns momentos entre os amigos viciados
são os pontos mais marcantes da trama. “Queria
que o filme captasse o humor e entusiasmo
do livro, mas sem deixar de fora o lado triste
e trágico”, comentou o diretor.
Então é possível se
divertir com as paranóias e idéias
de conspirações que afetam
os personagens em suas viagens alucinadas,
e também se deparar com a conseqüente
degeneração da mente deles – em
um presumido desfecho fatídico.
Talvez, não
por acaso, os atores que foram escolhidos
para
interpretar
os
viciados já tiveram algum envolvimento
direto ou indireto com drogas. Robert Downey
Jr, por exemplo, esteve internado em diferentes
centros de reabilitação, foi
preso várias vezes por uso e porte
de entorpecentes, e também por dirigir
em estado de embriaguez. Reeves começou
sua carreira promissora ao lado de River
Fênix, que morreu de overdose, Wiona
Rider, apontada como cleptomaníaco,
já foi casada com Johnny Depp, que
costumava quebrar quartos de hotéis,
quando estava sobre efeito do álcool
e quem sabe de mais o que.
A obra de Dick
ressalta a vulnerabilidade do ser humano
em relação à experimentação
das drogas, seja por um conflito interno,
pelo vazio da alma ou meramente pelo desejo
de libertação. Assim, no
filme, Fred revela que abdicou de sua família
para entrar no departamento de polícia
e assumir essa função de
risco, não pelo dever cidadão,
que costuma ser a motivação
dos heróis hollywoodianos. Mas,
aqui, é por se sentir entediado
com seu cotidiano happy family.