Crítica:
Por Lúcia Helena de Camargo
Preto, pobre, filho caçula de uma família com dez irmãos, o menino em idade pré-escolar é escolhido pela mãe para receber uma educação melhor do que a dos demais. Estamos em Belo Horizonte, em 1978. E do barraco de telhado de zinco onde moram, na periferia da capital mineira, ela leva o garoto até a Febem, na época anunciada nos meios de comunicação como uma espécie de escola ideal para carentes, de onde os meninos saíam “doutores”.
Baseado na vida de Roberto Carlos Ramos, o filme O Contador de Histórias (Brasil, 2009, 110 minutos), estreia desta sexta (7), tem nessa ação seu primeiro ato. Mas por mais triste e equívoca que possa parecer a decisão de uma mãe de abandonar o filho, entregando-o aos cuidados do Estado, a trama não cai no melodrama. E a narração, feita pelo próprio Ramos, dá conta de apresentar a imaginação fértil do garoto que seria reconhecido no futuro como um dos dez melhores contadores de histórias do mundo. Tudo sem perder o humor. Seja fantasiando que um dia foi líder de um mirabolante e colorido assalto a banco ou idealizando um circo no local da sede da Fundação Estadual do Bem Estar do Menor (Febem), o menino Roberto mostra que possui a habilidade incomum para narrar acontecimentos – reais, inventados ou um misto de ambos.
Para ganhar o respeito dos colegas, Roberto aprende palavrões. E no intento de conseguir mais comida, finge-se de doente. Quando percebe que a instituição na qual vive assemelha-se mais a uma prisão do que a uma escola, Roberto foge. É recapturado. E pula o muro rumo à rua novamente. Mais de cem vezes isso acontece. Até ser rotulado, aos 13 anos de idade, como “irrecuperável”. Então o destino – ou o acaso, dependendo do ponto de vista – produz o encontro com a pedagoga francesa Margherit Duvas, vivida na tela pela atriz portuguesa Maria de Medeiros. A mulher gentil pede "por favor" para falar com ele. Palavra estranha no vocabulário do garoto, acostumado a ser mandado ou xingado.
Nesse momento, o longa-metragem mais uma vez ameaça descambar no tom choroso. Mas o roteiro é esperto e consegue mostrar o desenvolvimento da relação entre a professora e o adolescente sem cair nas armadilhas. Ela permanece serena, com uma firmeza de intenções que supera qualquer contratempo. Ele, um osso duro de roer: mal-educado, teimoso, fechado em si mesmo. Até começar a se transformar, pelo afeto, em uma pessoa melhor.
Roberto Carlos é interpretado pelos atores Marco Ribeiro (seis anos), Paulinho Mendes (13 anos) e Clayton Santos (20 anos). Denise Fraga assina a produção com Francisco Ramalho Jr.
O diretor Luiz Villaça tem no currículo Por Trás do Pano e Cristina Quer Casar, que não despertaram grande entusiasmo na crítica e nem no público. O Contador de Histórias, porém, já chega rodeado de uma aura nobre, além de uma feroz campanha de marketing. Dinheiro da Petrobras e outros patrocinadores bem empregado, diga-se. Porque merece fazer sucesso. Em tempos de sequências de Se Eu Fosse Você estourando bilheterias, o filme é exemplo do bom cinema feito no Brasil. Sóbrio onde deve ser, engraçado na medida certa. E deixa o espectador tirar suas próprias conclusões.