Iguatu é uma
cidade a 380 km de Fortaleza, que exerce papel de
centro
regional de comércio
e serviços para
mais de dez municípos do
sertão cearense. Foi este lugar de calor causticante,
ir e vir de caminhões e trausentes que o cineasta
Karim Aïnouz escolheu para o cenário
do seu segundo longa-metragem, O Céu de Suely.
Diretor do já premiado Madame Satã (2002),
Aïnouz abocanhou, desta vez, os três prêmios
mais importantes do último Festival do Rio:
melhor filme, atriz e diretor.
A história conta a trajetória da jovem
Hermila (Hermila Guedes), nascida em Iguatu, que, aos
19 anos, partiu para São Paulo com o namorado
em busca de uma vida melhor. No entanto, o filme se inicia
com a jovem retornando à sua cidade natal, dois
anos depois, com um filho nos braços. Ela vai
morar com a avó e a tia, na casa da qual saiu
praticamente fugida, sem se despedir. O namorado, que
ficou em São Paulo e prometera chegar depois para
montar um negócio com Hermila em Iguatu, desapareceu.
E nesta espera,
no arrastado presente de Hermila que a trama de
O Céu de Suely se desenvolve. Na poltrona,
nos tormamos cúmplices da rotina de Hermila: a
desilusão com o amor, as novas amizades, a diversão
no forró e nos postos de parada de caminhões
e, acima de tudo, o desejo de encontrar uma saída,
literalmente, para escapar daquele fim de mundo.
Diferente
de um sertão árido (Iguatu é circundada
por lagoas) esse fim de mundo não tem como maior
vilão a seca. Mas é uma cidade, como tantas
outras brasileiras, pobre e distante dos grandes centros
urbanos. Para Hermila, insuportavelmente pequena. Pequena
para seus sonhos, mesmo que nem ela saiba o que deseja
para seu futuro. Não importa se parta para São
Paulo ou Porto Alegre, Hermila quer sair dali, quer encontrar
alguma coisa – anseios da juventude. É então,
que inventa um plano audacioso para levantar dinheiro
e viajar. Um plano que irá mexer com a cidade
inteira.
Ainda antes
de iniciar o roteiro, Karim Aïnouz
entrevistou mais de vinte jovens da região,
perguntando a eles sobre seus desejos e sonhos. Este
material serviu
de base para o desenvolvimento do roteiro.
Assim, se
o filme é regional, mostrando a particular
realidade nordestina, ele se universaliza ressaltando
os conflitos existenciais de uma juventude menos abastada
e intelectualizada. E, poeticamente, de uma condição
feminina.
Se em Madame Satã, ao escolher o ator Lázaro
Ramos como protagonista, Aïnouz revelou um grande
talento ao público, em O Céu de Suely
ele promove a atriz pernambucana Hermila Guedes, em
seu primeiro papel principal. Se ela não vem
como o tsumani Lázaro, ainda prova que a nova
geração de atores é competente
e veio para ficar.
Ainda no elenco, Georgina
Castro, interpreta a amiga de Hermila que faz programas,
Zezita Matos, a tia, que
sutilmente revela sua homossexualidade ao espectador,
e a avó, Maria Menezes, que faz uma das cenas
mais marcantes de discussão com a protagonista.
O Céu de Suely ainda teve produção
de Walter Salles, participou dos Festivais de Toronto
e Veneza e ganhou três prêmios no último
Festival de Thessaloniki, na Grécia: prêmio
da Federação Internacional de Críticos
de Cinema, de melhor filme; e do júri, melhor
roteiro e mérito artístico.