Crítica:
Por Geraldo Mayrink

     O espetacular sucesso mundial do romance O Caçador de Pipas (só no Brasil ocupa há um ano o primeiro lugar entre os mais vendidos) talvez não se repita com o filme que estréia nesta sexta-feira. Apesar da fidelidade quase obsessiva ao texto do afegão Khaled Hosseini, por um desses mistérios as pessoas costumam preferir ler (e visualizar por conta própria) a ver uma transposição pronta.

A apreciadíssima obra literária não é um grande livro, e o filme também está longe da perfeição. No entanto, os dois tocam nos nervos mais sensíveis do ser humano, a sua memória afetiva, mesmo que ela tenha como cenário um outro mundo tão diferente do nosso, na sua terra seca e arenosa, suas montanhas cobertas de neve e seus costumes incompreensíveis.

Para quem não leu, vale lembrar que estas memórias afetivas remetem a duas crianças, no texto de uma delas – dois meninos muito amigos que soltam pipas e correm pelas ruas e becos de Cabul no tempo em que a cidade parecia a recriação do paraíso. Eles não vêem as serpentes que todo paraíso oculta, soterradas no fundo da alma. Mostram a cara na forma de tanques soviéticos com a invasão do Afeganistão em 1976, quando as crianças ainda assistiam mo cinema a faroestes e aventuras como as de Bullit.

As coisas pioraram ainda mais com a tomada do poder pela milícia Taleban, em 1996, com suas barbas empoeiradas, seus turbantes ensebados e e sua incomparável selvageria. Ela trucidava os adversários com golpes de machado e depois os fritava em óleo fervente. Deu no The New York Times (e lamenta-se que pequenos afegãos não lessem jornais em inglês) que os Taleban criaram um espetáculo macabro chamado “dança do homem morto”. Cortavam-se as cabeças das vítimas, depois derramava-se gasolina nos seus pescoços e tocavam fogo em cima, emquanto o sangue borbulhava e os corpos se contorciam nos estertores finais.

Mas não é disso que se lembra o pequeno Amir (Zekria Ebrahani), depois médico e pai de dois filhos nos Estados Unidos (Khalid Abdalla). Só que há muita dor também, na alma, de sua relação com Hassan (Ahmad Mahmodzeda),o amigo fiel a quem atraiçoa. Moleques mal encarados ameaçam os dois.

O pai de Amir, Baba (Homayoun Sushadil) bebe embora isto seja proibido e deseja arrancar as barbas dos mulás religiosos. Há um secreto filho ilegítimo e a grande sensação, empinar e caçar pipas ao vento. Hosseini (ou Amir) deixou este lugar aos onze anos e voltou aos 38 para resgatar um sobrinho. Ele comenta:“Achei que tivesse esquecido minha terra. Mas não. Talvez o Afganistão também não tivesse me esquecido. Você escreve sobre o que vive. E vive o que está escrito”.

O filme é falado em inglês e dari, um dos dois principais idiomas do Afeganistão, e foi filmado lá, no Paquistão, na China e nos Estados Unidos. Mas a geografia é só para compor o cenário. Ao relatar os 30 anos em que se passa esta história, digamos assim, interior, o diretor Mark Forster (de Mais Estranho que a Ficção e Em Busca da Terra do Nunca) evitou o tom épico.

Alonga-se talvez um pouco demais (128 minutos), mas acerta na sensibilidade com que toca temas como amizade, família, erros, culpa, perda e redenção. Foi assim que Hosseini capturou seu vasto público leitor e é nessas pegadas que o filme segue. Não faz mal nenhum acompanhar os dois.

 

© Copyright 2008 Diário do Comércio - Todos os direitos reservados