Crítica:
Por Erika Corrêa
Em 1973, Odorico Paraguaçu, Zeca Diabo, Dirceu Borboleta e as irmãs Cajazeiras apareciam pela primeira vez na televisão para fazer história na dramaturgia brasileira. Assim, estreava o O Bem Amado, primeira novela em cores da rede Globo.
Baseada na peça de Dias Gomes, o sucesso do folhetim foi tanto que em 1980 ganhou um seriado com o mesmo elenco, transmitido por mais quatro anos. O neologismo e eloqüência do prefeito da cidadezinha de Sucupira, Odorico, interpretado por Paulo Gracindo, afirmou o ator como um dos maiores e melhores do país.
Mas não só o político corrupto ganhou notoriedade, Lima Duarte foi à grande revelação da época fazendo um jagunço para lá de singular e inesquecível, o Zeca Diabo.
Depois de 37 anos após o primeiro capítulo da novela, a versão cinematográfica da obra é realizada. Com direção de Guel Arraes e produção da Globo Filmes, portanto com elenco de atores globais, O Bem Amado, conta mais uma vez a história do prefeito demagogo que quer inaugurar o cemitério da cidade, obra superfaturada que ele promoveu em sua gestão. Só que, para seu azar, ninguém morre na pacata cidade.
Desesperado, Odorico chega a importar um moribundo de outra cidade e até contratar o matador Zeca Diabo. Para criar mais confusão, ainda enfrenta a forte oposição do jornal A Trombeta, ao seu governo populista.
A sátira sobre a política brasileira continua atual mesmo tanto tempo depois, já que o Brasil tem longa e enraizada história de corrupção. O problema do filme, no entanto, é o como foi conduzido o roteiro.
Ótimo cineasta para produzir filmes com temas genuinamente nacionais (O Auto da Compadecida/2000, Caramuru - A Invenção do Brasil/2001) Guel Arraes desta vez erra. Primeiro, por optar em usar cenas de arquivo de acontecimentos verídicos da política nacional, tanto no começo como no final do filme. Totalmente desnecessário.
Depois porque alguns personagens ficaram caricatos com o ritmo de paródia, apesar de a emissora ter recorrido aos melhores atores de seu portfólio. Assim, as irmãs cajazeiras (Andréa Beltrão, Zezé Polessa e Drica Moraes) viram peruas; Zeca Diabo (José Wilker) um cangaceiro completamente diferente do da obra original, Dirceu Borboleta (Matheus Nachtergaele) nem sequer é mais gago, sua marca registrada e o protagonista Marco Nanini, parece histérico.
A transformação dos dez meses de novela ou os 220 capítulos do seriado em um filme de 107 minutos, vai deixar frustrado os fãs das obras anteriores. Para quem não conheceu as outras versões, prefira alugar o seriado em DVD ou ler a peça.