Crítica:
Por Erika Corrêa
Na
cinematografia e na arte em geral a abordagem
dos excluídos pode correr o risco
de se tornar uma forma estilizada de retratar
a pobreza. Filmes como Cidade de Deus e
mesmo trabalhos como os do fotógrafo
Sebastião Salgado, por divulgarem
aspectos da favela ou da violência,
já foram justamente questionados
se não estavam entrando nesse viés.
Será possível denunciar as
mazelas do mundo através de documentos
belos a respeito da desgraça humana?
Assim o cineasta Glauber Rocha, em 1965,
criou a expressão “estética
da fome” para dizer que precisávamos
de imagens não estereotipadas da
pobreza.
O filme de estréia do uruguaio César
Charlone O Banheiro do Papa , consegue fugir
de todos esses preceitos da glamorização
da pobreza. Com sensibilidade, a história
nos transporta para a realidade miserável
do pequeno povoado uruguaio de Melo, fronteiriço
com o vilarejo brasileiro de Aceguá.
Por meio do cotidiano
de um grupo de muambeiros que abastecem
o comércio local com
produtos contrabandeados do Brasil, o espectador
vai conhecendo a árdua vida de Beto
(César Troncoso) e sua família.
Difícil ficar impassível e
não torcer para que esses homens humildes
que percorrem mais de 60 km com o bagageiro
de suas bicicletas velhas e enferrujadas
repletos de pacotes de pilhas, mate, farinha,
vençam o cansaço e consigam
driblar a fiscalização e entreguem
suas muambas ilesas aos receptores. Se a
atividade é ilegal, a condição
social que somos transportados, somada a
corrupção fiscal, já justifica
a simpatia despertada pelos infratores.
Mas é outro acontecimento “sacro” que
enche de esperança o povo de Melo:
a visita do papa João Paulo II. Segundo
as rádios locais e a televisão,
o episódio trará uma enxurrada
de brasileiros para o local - uma chance
dos moradores ganharem algum dinheiro.
A maioria põe-se a fazer quitutes
típicos e montam barracas para vendê-los
pelas ruas da cidadezinha. Beto, no entanto,
decide construir um banheiro para os fiéis.
Assim começa a saga dessa construção.
Banheiro do Papa ganhou seis troféus
no Festival de Gramado de 2007, entre eles
os prêmios da crítica e do público
e também fez parte da seleção
de Cannes.
Radicado em São Paulo e diretor de
fotografia, César Charlone também
assina o roteiro baseado em fatos verídicos,
ao lado do seu conterrâneo Enrique
Fernández. Apesar de ser seu primeiro
longa, ele tem vasta experiência no
cinema publicitário. Trabalhou com
Fernando Meirelles como diretor de fotografia
em O Jardineiro Fiel e Cidade de Deus, pelo
qual foi indicado ao Oscar nesta categoria.
O filme ainda mistura
atores profissionais como César Trancoso, mais de 30 anos
de palco, com estreantes como Mario Silva,
que interpreta Valvulina, o fiel amigo de
Beto. E é difícil saber na
tela quem é experiente e quem não é.
Como Charlone mesmo declarou a respeito do
seu filme: “Tem uma abordagem tragicômica,
sem uma falsa piedade, sem lamentação,
sem ser uma coisa queixosa”.