Crítica:
Por Erika Corrêa

Foi em 1984, aos 25 anos de idade, que o jornalista gaúcho Eduardo Bueno apresentou aos brasileiros a primeira versão traduzida do livro On The Road (Na Estrada), quase trinta anos depois do lançamento nos EUA, em 1957. Considerado a Bíblia da geração beat, o livro influenciou jovens do mundo todo, inspirando-os a cair na estrada, ter uma vida livre, repleta de sexo, drogas e be bop, vertente do jazz da época.

Mas até na América os manuscritos do autor Jack Kerouac levaram seis anos para serem publicados, pois a primeira versão, com 37 metros, escrita em folhas vegetais, emendadas com fita adesiva, quase sem pontuação, foi finalizada em 1951. Kerouac, que ficou famoso do dia para a noite com o título, vociferou aos jornalistas: “Onde vocês estavam quando eu acabei meu livro? Era nesse momento que deveriam ter cruzado meu caminho?”.

A delonga, no entanto, em nada prejudicou o culto à emblemática obra, que impulsionou o movimento hippie e a contracultura dos anos de 1960. Todavia, Na Estrada sofreu a mesma “condenação” na sétima arte. Provocativa, não linear, e por isso mesmo uma literatura bastante complexa para ser filmada, permaneceu nas gavetas do cineasta Francis Ford Coppola desde 1978, quando ele comprou os direitos de registrar a história. Chegou a ser oferecida a Jean-Luc Godard e Gus Van Sant, mas foi Walter Salles que se encorajou a fazer a versão cinematográfica que estréia nesta sexta-feira (13) no País.

Bem recebido pela crítica do último festival de Cannes, o longa-metragem mostra a jornada de Sal Paradise (Sam Pidley, que já interpretou com excelência o cantor Ian Curtis, em Control) e seu amigo delinquente Dean Moriarty (Garrett Hedlund) de leste a oeste do país, pela famosa Rota 66, a partir de 1947 - uma viagem em alta velocidade, regada a bezendrina.

Há ainda a namorada Marylou (Kristen Stewart, da saga Crepúsculo) em um papel para lá de sensual e cenas mais chocantes que mostram o personagem Old Bull Lee (na verdade o poeta William S. Burroughs) totalmente drogado com um bebezinho no colo, enquanto sua esposa alucinada espanta imaginários lagartos de uma árvore do quintal.

Aliás, todos da história são retratos dos verdadeiros beatniks, Sal é o alter ego de Kerouac, Dean é Neal Cassady, Carlo é Allen Ginsberg. Uma geração que, filmada após sessenta anos, ainda se mostra irreverente e visionária, mesmo que, por momentos, por meio das lentes mais conservadoras de Salles.

 


 

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