Crítica:
Por Lúcia Helena de Camargo

Até que ponto a dedicação de mãe é algo positivo? "Não esqueça o agasalho, filho!"; "Você vem para o jantar?"; "Não volte tarde!"; "Aquele seu amigo não parece boa companhia" são algumas das frases típicas daquelas que assumem na vida a missão de proteger a prole a todo custo. Os filhos que são objeto do excesso de cuidados se queixam. E vez ou outra também se rebelam. É o caso de Do-Joon (Won Bin), nas telas filho único de Kim Hye-ja, a estupenda protagonista do filme coreano Mother - A Busca pela Verdade, em cartaz na Cidade.

O rapaz tem 27 anos de idade. Por muitos considerado bonito, sofre de atraso mental. E embora a mãe se empenhe nas 24 horas do dia em mantê-lo sadio, alimentado, confortável e protegido, ele a deixa enlouquecida de apreensão ao sair com um amigo (algo espertalhão) para beber, farrear e procurar garotas. Sim, porque ele pode ser meio bobo, mas é homem. E seus hormônios afloram, colocando-o refém de desejos que não é capaz de articular.

Dona de uma loja de chás, em uma cena emblemática ela corta as folhas em uma guilhotina caseira, desviando constantemente o olhar para observar o filho, que brinca com um cão do outro lado da rua. Num átimo, um carro o atropela, ela machuca a mão. Mas a tragédia anunciada não se concretiza. Ele sobrevive e, incitado pelo amigo, quer apenas vingar-se do motorista que fugiu e não lhe prestou socorro.

A mulher pratica, para aumentar a renda, acupuntura – o método terapêutico oriental baseado na introdução na pele de finas agulhas, com objetivo de curar males físicos e psíquicos. Mas o faz de maneira ilegal, já que não tem licença. Ela diz possuir a habilidade de "desfazer os nós do coração e apagar as más lembranças" aplicando uma agulha em um ponto exato da coxa de uma pessoa. E a teoria vai encontrar oportunidade de ser testada.

Quando uma moça do bairro é encontrada morta em um prédio abandonado e Do-Joon acusado de ser o autor do crime, a mãe – convencida da inocência do rapaz – segue em busca do verdadeiro autor, já que não tem na apática polícia uma aliada para essa tarefa. Ela não vê nada à sua frente. Enxerga apenas a crueldade praticada contra o filho injustamente encarcerado. Quando contrata um advogado, chega a vislumbrar uma nesga de esperança. Mas o empenho pífio do defensor também acaba por não convencê-la. Em sua saga empenhada em encontrar o assassino – mote para o título do filme em português – a mãe move céus e terras para achar provas. Se alguém se interpõe entre ela e seu objetivo, é execrado. "Você não vale a terra na unha do dedão do meu filho", desfere contra o catador de materiais recicláveis, morador de rua, que pode ter alguma ligação com o crime.

Os fatos vão sendo revelados em finas camadas, pouco a pouco. Ficamos sabendo que a menina morta não era exatamente uma escolar inocente, como vista pela comunidade. Sabiam, até então, apenas que era ela quem tomava conta da casa e da avó alcoólatra. As coisas começam a mudar de figura quando vem à luz que a garota registrava em seu telefone celular muitas das aventuras, digamos, extracurriculares que praticava com homens, em troca de dinheiro ou até mesmo de pequenos sacos de arroz.

O diretor e roteirista Bong Joon-ho faz seu quarto longa-metragem. Os trabalhos anteriores dele foram Barking Dogs Never Bite (cachorros que latem nunca mordem) – não distribuído no Brasil; Memórias de Um Assassino (Salinui Chueok, 2003) e o elogiado O Hospedeiro (The Host, 2006) . Neste Mother, ele apura a técnica e narra, lançando mão de expressões faciais precisas e curtos diálogos, a história de uma obstinação alucinada e destrutiva, fincada na emoção mais singela da humanidade: o amor de mãe.

Mother - A Busca pela Verdade (Madeo, Coreia
do Sul, 2009, 129 minutos). Direção: Bong Joon-ho. Com Kim Hye-ja e Won Bin.

 

 

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