Crítica:
Por Erika Corrêa

Na turística região da Toscana, Itália, a província de Lucca, cercada por sua muralha renascentista, guarda um tenebroso episódio em sua história. Em meio à bela paisagem e o rico acervo artístico, a vila de Sant'Anna di Stazzema foi palco de um massacre em agosto de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial. Os habitantes da pequena aldeia, na maioria, crianças e mulheres, foram reunidos em frente à Igreja e fuzilados pelos soldados alemães – uma retaliação da atividade política italiana.

É neste fato que se debruça o novo filme de Spike Lee Milagre em Sta.  Anna. Mas por que o diretor, famoso por abordar o preconceito racial entre negros e brancos, decidiu filmar a Segunda Guerra, e ainda um acotecimento entre alemães e italianos?

A questão é que o filme, baseado no livro de James McBride, ressalta a história da infantaria Búfalos, formada por soldados negros americanos que serviram a Itália, e em especial, quatro deles que ficam encurralados na vila durante o confronto.
 
Bastante romanceado, Lee mostra um racismo além das fronteiras norte-americanas. O negro é muito mais discriminado entre os próprios brancos do seu exército e do seu país do que pelos italianos. Por sua vez, os italianos estão divididos: os amigáveis às tropas aliadas e os remanescentes fascistas, simpáticos aos nazistas. Sem contar o preconceito maior implícito da Guerra contra os judeus.

É no cenário da insanidade da guerra que o diretor consegue ressaltar ainda mais o absurdo racista, que extrapola muitas vezes uma luta comum. “Foi bom ver outra pessoa acrescentar sua visão à história. E eu gosto da visão de Spike Lee, acredito nela. É como o jazz... Cada um acrescenta um sabor e uma cor particular e isso que cria a música”, declarou o escritor McBride.

Durante um confronto com o exército nazista, quatro negros da infantaria dos Búfalos: os sargentos Aubrey Stamps (Derek Luke) e Bishop (Michael Ealy), e os soldados Hector (Laz Alonso) e Train (Omar Benson Miller) conseguem ultrapassar a linha do front e chegar a um vilarejo, mas ali ficam cercados pelas tropas alemãs.

O grandalhão soldado Train resgata um menino italiano (papel de estréia de Matteo Sciabordi) dos escombros de uma casa detonada por bombas e passa a proteger o garoto. Apesar de não se compreenderem pela língua se afeiçoam. O pequeno Ângelo passa a chamar seu “tutor” de Gigante de Chocolate, que por sua vez, carrega para cima e para baixo a cabeça de uma estátua de Florença, que acredita ter poderes sobrenaturais quanto em contato com o menino. 

A relação entre os dois sargentos com uma jovem italiana, e a relação entre o gigante Train e o jovem órfão são os pontos altos do filme. Filmado na própria cidade onde ocorreu o massacre, o cenário do filme é surpreendente.

Pena que durante a apresentação do filme em Cannes, o diretor Spike Lee tenha se exacerbado quanto à questão racista e atacou seu colega Clint Eastwood, por não ter escalado nenhum ator negro em seus filmes: “A conquista da honra” e “Cartas de Iwo Jima”, sobre a entrada de tropas americanas no Japão em 1945. Além dos títulos nem terem passado neste Festival (são do ano passado), existem diversos outros filmes sobre a Segunda Guerra sem a presença de negros, e não parece uma questão de preconceito. Só faltava usar o regime de cotas também para a sétima arte. Eu diria na gíria: Menos, Spike Lee, menos.

 

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