Crítica:
Por Lucia Helena de Camargo
Karatê Kid, a nova versão que estreia no Brasil, traz argumento igual ao primeiro filme da série de sucesso nos anos de 1980, mas embora mantenha o título, muda o esporte para kung-fu. Na China, aliás, foi lançado com o nome de Kung-fu Kid, que faz muito mais sentido.
Para abocanhar uma fatia mais gorda de público, o protagonista, em vez de adolescente, agora é um garoto. Daniel Larusso (Ralph Macchio), tinha 17 anos no primeiro Karatê Kid, de 1984. Dre Parker, interpretado por Jaden Smith (filho de Will Smith), tem 12 anos na história. Sai a cultura japonesa e entra a chinesa. O mestre, Sr. Miyagi (Pat Morita), foi substituído pelo Sr. Han (Jackie Chan). A mãe (Randee Heller), antes transferida de Nova Jersey para Detroit, agora é escalada para trabalhar na China. Encarnada por Taraji P. Henson, figura como um dos pontos fracos do longa-metragem. Tem-se a impressão de que a atriz está lendo um papelzinho grudado à sua frente, quando conversa com o filho. Mas ela felizmente pouco aparece.
De resto, o roteiro segue no mesmo tom. O menino cai de amores pela coleguinha de classe Mei Yi (Han Wenwen). A menina, que percebe o pequeno norte-americano deslocado no novo ambiente, conversa com ele, traduz e fornece explicações sobre a cultura local. No entanto, isso provoca a ira de outros garotos da escola, que já disputavam as atenções da bela chinesinha.
Não vai demorar para que Dre seja perseguido e comece a levar surras dos colegas lutadores de kung-fu, especialmente Cheng (Zhenwei Wang). O menino americano tem umas parcas noções de karatê ("Karatê, kung- fu, tanto faz", diz a mãe, na única referência do filme ao título). Mas isso em nada lhe ajuda. Seu único aliado será o zelador do prédio onde mora, Sr. Han (Chan), que no passado fora mestre de kung-fu.
Começa então a jornada rumo à aprendizagem dos princípios da arte marcial. E como no recente desenho Kung-Fu Panda (foto no quadro abaixo), o menino vai descobrir que para lutar ele precisa mais do que habilidade e força. Inteligência, perseverança e serenidade serão primordiais.
No processo de treinamento, porém, o Sr. Miyagi era mais prático: enquanto aprendia os movimentos do karatê, o jovem Larusso trabalhava duro pintando cercas, pregando tábuas, lavando chão. Agora, o pequeno Dre começa a captar a arte do kung-fu repetindo dias inteiros a enfadonha tarefa de pendurar em um gancho e derrubar no chão o próprio casaco. Já as locações enchem os olhos. As aulas são ministradas em diversos cartões postais chineses, da Cidade Proibida à Grande Muralha.
Dirigido por Harald Zwart, o filme é produzido, entre outros, pelos pais-corujas de Jaden (Will Smith e Jada Pinkett Smith), junto a Jerry Weintraub, que participou dos primeiros filmes. O jovem ator treinou o esporte intensivamente e declarou que tentou imitar Jackie Chan. "Assisti a muitos filmes de Chan e copiei alguns de seus movimentos", disse Smith. O menino apareceu pela primeira vez no cinema atuando ao lado do pai, no drama À Procura da Felicidade (2006) e depois em O Dia em que a Terra Parou (2008), com Keanu Reeves.
Foi mantido, nesta nova versão, o humor americano que caracterizava o protagonista, traduzido em uma certa displicência que se contrapõe ao ar grave do mestre oriental. O garoto tenta burlar o sistema escondendo o agasalho, entre outras travessuras, que tornam mais leve o longo filme (duas horas e vinte minutos de duração). Também entraram piadas baseadas na falta de entendimento do idioma chinês, como no momento do acordo feito por Sr. Han para que Dre lute no campeonato, e na singela cena em que o jovem decora o som das palavras para falar com o pai da amiga. Tem sua graça. E mostra que o filho de Will Smith, que está bem orientado, pode ter futuro em Hollywood. Mas o filme, apenas bonzinho, talvez não seja o início de uma franquia, como seu antecessor da década de 1980.
Karatê Kid (The Karate Kid, EUA, 2010, 140 minutos). Direção: Harald Zwart. Com Jaden Smith, Jackie Chan, Taraji P. Henson.
PRINCÍPIOS E TÉCNICAS
O karatê – no Brasil admite-se também a grafia caratê – é uma arte marcial surgida na ilha japonesa de Okinawa, com influências chinesas. Significa "mãos vazias", o que sinaliza para a falta de armas. A luta consiste em golpes, pontapés, socos, joelhadas e cotoveladas, sempre com a palma da mão aberta. Há diversos estilos de karatê. Os mais graduados atingem a faixa preta. Já o kung-fu, originário da China, teria nascido da necessidade de sobrevivência na luta contra animais ferozes e inimigos. Os golpes são baseadas em movimentos de animais, como garça, louva-deus, tigre, serpente, águia e macaco.
OS MESTRES
O sr. Miyagi foi celebrizado pelo ator nipo-americano Noriyuki "Pat" Morita (1932-2005) na série Karatê Kid. Ao mesmo tempo grave e engraçado, ele se investia de seu ar mandão para colocar Daniel Larusso na linha e ensinar-lhe os princípios do karatê.
Entre outros papéis, Pat Morita encarnou Arnold na série de TV americana Happy Days e fez a voz do dono da Ilha do karatê, no desenho Bob Esponja na Ilha do Karatê.
Já o chinês Jackie Chan – nascido em Hong-Kong com o nome de Chan Kong-Sang – teve toda a carreira construída sobre o kung-fu. Primeiro lutador dessa arte marcial, ele se tornaria ator, produtor, roteirista, coreógrafo e diretor de cinema. Chan é conhecido por usar, nas sequências de luta, objetos como cadeiras, mesas, lâmpadas e cordas. Ele costuma dispensar o uso de dublês para as cenas perigosas. Em razão disso, já teve o nariz, o tornozelo e os dedos quebrados diversas vezes. Além dos filmes nos quais participou, há uma história em quadrinhos e um desenho animado com o seu nome.
A SÉRIE
Sucesso de público, a série Karatê Kid surgiu em 1984, com direção de John G. Avildse. Pat Morita, como Sr. Kesuke Miyagi, foi indicado no ano seguinte para o prêmio Oscar de melhor ator coadjuvante, e na mesma categoria ao Globo de Ouro. Não ganhou, mas o filme alçou ao sucesso canções da trilha sonora, como Glory Of Love, de Peter Cetera, e The Moment of Truth (Survivor).
A continuação viria em 1986. Nessa sequência, Daniel Larusso viaja com o Sr. Miyagi para Okinawa, onde o japonês precisa resolver problemas familiares. E vai aproveitar para resgatar um antigo amor e velhas desavenças que teve com seu melhor amigo de infância, atualmente rico empresário local. O jovem lutador de karatê vai achar uma namorada japonesa e ajudar nos projetos.
O terceiro filme, de 1989, traz um Larusso fora de forma, que se empenhará em ajudar o Sr. Miyagi na loja de bonsais. Ele não quer mais lutar karatê. O roteiro então volta à velha fórmula e coloca os valentões locais para tentar desmontar o empreendimento e levar o rapaz de volta à arena de combate. Ele se investe de heroísmo, mas a trama não convence.
Ainda assim foi feito um quarto filme, desta vez com uma menina no papel principal, na tentativa de renovar a saga. Em Karate Kid - A Nova Aventura, de 1994, Pat Morita continua como o mestre. E chega Hilary Swank para viver Julie Pierce, neta do comandante de Miyagi na Segunda Guerra Mundial. Ele se ocupa da adolescente problemática, que passa por uma fase difícil em razão da perda dos pais. O karatê é apresentado à jovem como caminho para que ela encontre o rumo certo na vida.