Crítica:
Por Lúcia Helena de Camargo
Apostando na difundida ideia de que jornalistas são pessoas que consomem muito álcool (não de todo infundada), mais um filme foi feito tomando essa tese como parte importante da trama. Diário de um Jornalista Bêbado traz Johnny Depp na pele do repórter americano Paul Kemp que, com a carreira em decadência, vai trabalhar no jornal The San Juan Star, em Porto Rico, nos anos de 1950. Baseado no romance de mesmo título escrito por Hunter S. Thompson (1937-2005), o filme mostra com esmero as belezas naturais de Porto Rico, país que desde 1898 pertence aos Estados Unidos (antes, era posse da Espanha), e na época da ambientação do filme funcionava como uma espécie de playground americano – assim como Cuba até 1959 (ano em que Fidel Castro assumiu o poder).
Embora consumindo rum em quantidade (ele toma 161 garrafinhas do frigobar do hotel em apenas dois dias) e fumando sem parar, o jornalista – com ambições a escritor – começa a notar nos arredores fatos que não condizem com o retrato de paraíso tropical. Há, por exemplo, crianças morando dentro de carros abandonados em uma espécie de lixão. Quer escrever a respeito disso no jornal. Mas o diretor, Lotterman (Richard Jenkins), se recusa a publicar histórias tristes de pessoas pobres, porque, alega ele, os anunciantes preferem suas propagandas junto a notícias leves. O jornal é dirigido a americanos em férias, que o folheam esperando ler amenidades, como o vencedor do campeonato de boliche.
Paul vai morar com dois colegas mais beberrões do que ele. Na casa caindo aos pedaços, suja de doer, por algum motivo eles mantêm na sala uma bandeirola com a suástica, além de discos com músicas da Alemanha nazista. Um deles possui galos em gaiolas, pois ganha um dinheirinho extra organizando brigas de galos. O outro toma doses colossais de um destilado caseiro e sai desferindo verdades absolutas a quem estiver por perto.
Uma mulher bonita sempre esquenta a trama. Assim, Paul encontra Chenault (Amber Heard), que a princípio imagina ser uma alucinação de sua mente turva pelo álcool. Pensa que se trata de uma sereia, já que ela surge do mar. Paul começa a se apaixonar por Chenault e descobre que ela é noiva de Sanderson (Aaron Eckhart), empresário respeitado da cidade. O figurão se interessa pelas habilidades literárias do repórter, chamando-o para uma empreitada não exatamente dentro da lei. A partir daí prepare-se para dilemais morais, promessas cumpridas ou não de sexo, uma inusitada perseguição de carros velhíssimos e, claro, mais sequências de ressacas. Em uma dessas o jornalista toma água do aquário. Com os peixes ainda dentro dele.
Este é o segundo filme baseado na obra de Thompson no qual Depp atua. O outro foi Medo e Delírio (1998). Que Johnny Depp é um ator consistente e maduro não há dúvida. Sua primeira especialidade é interpretar à perfeição os tipos bizarros criados por Tim Burton, como Edward Mãos de Tesoura; o chapeleiro maluco de Alice no País das Maravilhas, o alucinado dono da fábrica em A Fantástica Fábrica de Chocolate. E a segunda coisa que faz bem é viver na tela homens parecidos consigo mesmo. Paul Kemp parece ser uma versão mais pobre e exagerada de Depp, que também é conhecido por fumar bastante e beber em certa quantidade. A comédia tem altos e baixos, mas graças ao ator, é entretenimento razoável para o fim de semana.
Diário de um Jornalista Bêbado (The Rum Diary, 2011, Estados Unidos, 120 minutos). Direção: Bruce Robinson.
Com Johnny Depp, Amber Heard, Aaron Eckhart.