Crítica:
Por Erika Corrêa
O
pistoleiro mais famoso dos Estados Unidos,
que recheou a literatura com romances que
se estende desde tratados filosóficos
sobre sua personalidade a folhetins baratos
e sensacionalistas, ganha mais uma vez
uma versão cinematográfica.
Ao todo já foram
realizados 125 filmes sobre Jesse James.
E se tratar mais uma vez
do mito parece desgastado, o diretor neozelandês
Andrew Dominik prova o contrário com
uma história inusitada, baseada no
romance homônimo de Ron Hansen.
Sem enaltecer os espetaculares
roubos a bancos e assaltos realizados por
sua gangue,
Dominick desconstrói o herói
e mostra um bandido atormentado e frio em
seus últimos dias antes de ser assassinado
por um dos membros mais recentes do bando.
A lenda Jesse James
rendeu um novo Robin Wood do velho oeste,
já que o fora-da-lei
justificava que seus roubos eram repúdios às
instituições do governo, em
decorrência das atitudes arbitrárias
e injustas acometidas na guerra da Secessão
como, por exemplo, a desapropriação
das terras de pequenos fazendeiros sulistas,
o que incluiu sua família.
Mas o diretor pouco
se refere a essas alegorias: o único assalto mostrado é logo
nas primeiras cenas do filme. Jesse James,
interpretado pelo astro Brad Pitt (Melhor
Ator no Festival de Veneza) ataca sem piedade
um dos maquinistas que demora a abrir o cofre.
Assim, com os cabelos
tingidos de preto e lentes escuras, Pitt
vai traçando
o perfil de um bandido angustiado, em que
não pode ter a família em um
local de segurança e que não
confia em mais nenhum de seus parceiros,
já que as autoridades colocaram sua
cabeça a prêmio.
Pitt ainda contou
com prerrogativa do sotaque, já que também nasceu e cresceu
na cidade de Springfield, a mesma do pistoleiro.
Apesar dos quesitos, fama e prêmio
quem rouba a cena do filme é o ator
Casey Affeck, que interpreta o algoz Robert
Ford.
O rapaz de 19 anos,
irmão de um dos
integrantes do bando de Jesse James, nutre
uma admiração doentia por Jesse
James. Passou a adolescência lendo “dime
novel” - livretos que narravam feitos
de Jesse. E tudo o que ele quer é se
aproximar de seu ídolo.
Alguns jornalistas
no Festival de Veneza chegaram a questionar
se houve uma relação
homoerótica entre os personagens proposta
pelo diretor. Não, não houve. É muito
mais um desenho da inveja. Assim, o invejoso
deseja ter algo que outra pessoa tem, deseja
estar no lugar do outro, mas em seu extremo,
deseja ser o outro. A idolatria vai consumindo
corpo e alma de Robert Ford. Em uma cena
Jesse James questiona Robert: “Você quer
ser como eu ou você quer ser eu?”.
Com um título que revela o desfecho,
o que prende é justamente essa relação
incômoda entre os dois personagens
e, em que ponto ela levará para o
assassinato. As cenas lentas, as paisagens
tomadas por pradarias e o dourado do capim
do sul ao vento, lembram o estilo do western
do diretor consagrado Sérgio Leone.
Dominick, que também é responsável
pelo roteiro, dirige comerciais e videoclipes
há algum tempo. Seu primeiro longa é pouco
conhecido aqui. Trata-se de Chopper (2000),
baseado na vida do criminoso australiano
Chopper Read. Neste seu segundo trabalho,
além de escolher um elenco de famosos,
se uniu a grandes nomes para produtores como
os irmãos Ridley e Tony Scott e o
próprio Brad Bitt que assina como
co-produtor.