Crítica:
Por Lúcia Helena de Camargo

As primeiras cenas de J. Edgar mostram um homem taciturno, envelhecido, atrás de uma escrivaninha, matutando velhas ideias. Quem não sabe que o protagonista desse filme é Leonardo DiCaprio pode demorar longos segundos para perceber que ele está ali, debaixo de quilos de maquiagem, tão assombrosa é a caracterização. O ator passava diariamente pela demorada aplicação de uma máscara de látex, sob a qual precisou criar expressões. "Fiquei parecendo a minha avó", disse DiCaprio, depois da primeira vez que se viu no espelho com todo o aparato.

O filme, dirigido por Clint Eastwood, mostra a trajetória de John Edgar Hoover, homem que comandou o Federal Bureau of Investigation (FBI), durante 48 anos. Sua carreira começou um pouco antes, em 1919, quando foi indicado para investigar estrangeiros suspeitos de subversão. Acabou sendo responsável pela expulsão dos Estados Unidos de um grande número de pessoas. A repercussão de seu trabalho levou à nomeação para assistente do diretor do FBI, a quem substituiria em 1924, ficando no cargo até a sua morte, em 1972. Quando assumiu a direção, o órgão contava com 657 agentes. No ano de sua morte já eram milhares, chegando a 16 mil nos dias atuais.

Em sua ferrenha cruzada conta o comunismo, Hoover inventou novas formas de indexação para organizar os livros da Biblioteca do Congresso e viu passar pela Casa Branca oito presidentes. Também liderou a perseguição e prisão de bandidos emblemáticos como John Dillinger, Pretty Boy Floyd e Baby Face. Nessa parte da trama, o filme detalha aspectos não muito abonadores de sua personalidade, como a vontade de parecer mais destemido e ousado do que realmente era. Mas a história atesta que – concorde-se ou não com as convicções que ele professava – J. Edgar era coerente. Como muitos daqueles que possuem inteligência acima da média, foi ficando cada vez mais intolerante com erros de funcionários. E também como não é incomum em pessoas que têm muitos sob seu comando, à medida que a idade avançava tornava-se totalitário e irascível. "Ninguém divide poder em Washington voluntariamente", era um de seus bordões.

J. Edgar aborda ainda o homossexualismo de Hoover, que se na época não foi explícito, também não era de todo ignorado. Ele jamais se casou e morava com a mãe (Judi Dench). Até o fim da vida manteve uma estreita relação com seu assessor e amigo, Clyde Tolson (Armie Hammer).

Um dos episódios mais polêmicos da carreira de Hoover toma boa parte do filme: o rapto do filho do aviador Charles Lindenberg, cuja investigação moveu todo o FBI durante meses.

Outra obsessão era criar um banco de dados com as impressões digitais de todos os americanos, com objetivo de controlar crimes e, como subproduto, as ações de todos, o tempo todo. Se vivesse até hoje, talvez ficasse feliz em ver que seu sonho não ficou tão longe de virar realidade.

J. Edgar (EUA, 2011, 128 minutos). Direção: Clint Eastwood. Com Leonardo DiCaprio, Birol Tarkan Yildiz, Armie Hammer, Naomi Watts, Lea Thompson, Josh Lucas, Ed Westwick, Dermot Mulroney, Judi Dench, Stephen Root, Jeffrey Donovan, Michael Gladis.

 

 

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