Por Erika Corrêa

“Muita realidade para o cinema” – essa seria uma boa definição para os filmes do austríaco Ulrich Seidl, polêmico cineasta que sempre explora temas pesados e angustiantes.

Apesar de alguns documentários lançados anteriormente, foi seu primeiro longa de ficção "Dog Days", vencedor do Prêmio do Público no Festival de Veneza de 2001, que tornou o diretor conhecido fora das fronteiras do seu país.

No Brasil, no entanto, Ulrich Seidl continua desconhecido do grande publico e seus títulos só foram exibidos em mostras. Agora, com dois anos de atraso, chega seu último filme Import Export (2007), em pequeno circuito nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo.

O aviso é sempre prudente: não é um filme para quem quer relaxar depois do trabalho e muito menos para quem deseja esquecer as mazelas da vida. Como as outras produções, Import apresenta cenas chocantes, algumas constrangedoras envolto de mais um tema árduo.

O panorama desta vez é a migração entre os países europeus: a parte rica (Ocidental) e a mais pobre e atrasada (Leste). Mas isso não quer dizer que os “maus” são apenas os ricos e mais desenvolvidos que exploram seus irmãos ex-comunistas. O diretor mostra que a exploração ultrapassa a linha da pobreza ou da desigualdade sócio-cultural, é muito mais um predicado intrínseco à natureza humana.

Na história, duas tramas distintas que se interligam apenas pelo mote central. Olga, uma jovem ucraniana é enfermeira e para aumentar seu salário faz programas de sexo virtual. Seus clientes em potencial são europeus ocidentais. Com esperança de uma vida melhor, ela decide morar clandestinamente na Áustria. O emprego que consegue é de faxineira em um hospital geriátrico.

Do outro lado, está o jovem austríaco Paul, que trabalha de segurança. Após ser demitido, resolve acompanhar seu padrasto em uma viagem de negócios até a Ucrânia. Com uma jeito neo-nazista, Paul, ao longo do filme, vai se mostrando até mais equilibrado do que o próprio padrasto.

A diferença social aparece em detalhes como: as obsoletas máquinas caça-níqueis austríacas que são exportadas para a Ucrânia e lá consideradas ultramodernas; e também em cenas exageradas como as amplas tomadas do subúrbio ucraniano, a prostituição e crianças que correm desesperadas atrás de doces jogados pela janela de um furgão.

Mas tudo no filme de Seidl é denso e incômodo. Quem já esteve em um asilo em qualquer lugar no mundo, vai perceber que as cenas dos velhinhos no hospital da Áustria são reais demais. Talvez, demasiado para o cinema.

 


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