Crítica p
or Lucia Helena de Camargo

Mostrar a violência explícita nos atos ou encravada no espírito humano é uma das especialidades do cineasta Martin Scorsese. Mafiosos, bandidos variados e policiais mais ou menos equilibrados estão entre os tipos que ele costuma escolher para protagonistas. No seu mais recente filme, Ilha do Medo, a ação é liderada pelo policial federal Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e seu parceiro Chuck Aule (Mark Ruffalo). Correm os anos de 1950. Eles são convocados para resolver o caso de uma misteriosa fuga no presídio-sanatório Shutter Island Ashecliffe Hospital, instalado em ilha próxima a Boston. O lugar abriga doentes mentais que cometeram crimes violentos. Imprevisíveis e perigosos, são vigiados 24 horas por dia. Mas Rachel Solando (Emily Mortimer), mulher condenada por matar os três filhos afogados, teria conseguido escapar de sua cela de maneira incompreensível. A porta permanecera fechada por fora. A janela conserva as grades intactas. Ela deixou para trás seus dois únicos pares de sapatos. Não, nem pense em cogitar da hipótese de um fato sobrenatural. Afinal, é uma história de Scorsese. Elucidar a questão será uma tarefa 100% terrena.

No desenrolar da investigação, o truculento Teddy enfrenta a reticência do psiquiatra Dr. John Crawley (Ben Kingsley), que prefere chamar os presos de "pacientes" e veta o acesso da dupla de detetives a documentos e áreas do hospital. Já incomodados por terem sido obrigados a entregar as armas ao administrador local antes de adentrar os portões, eles se ressentem por não poder agir como gostariam nem circular livremente. "Se fossem apenas pessoas ouvindo vozes e caçando borboletas imaginárias, não precisariam da gente aqui", diz Chuck.

Há, porém, fantasmas de outra natureza rondando os corredores e mentes. Teddy é constantemente atormentado pela lembrança dos semblantes dos judeus que viu ao participar da libertação no campo de concentração de Dachau. Enxerga a pilha de corpos congelados sob a neve e os rostos dos guardas rendidos. Muitas de suas horas são tomadas ainda pelas recordações que tem da mulher, Dolores (Michelle Williams), morta em um incêndio cuja autoria foi atribuída a Andrew Laeddis (Elias Koteas), incendiário também confinado no hospital da ilha. Algumas sequências, em tom honírico, exibem os tormentos vividos pelo marido. Estilizadas ao extremo, parecem incluídas para exibir um virtuosismo de câmera que, na prática, apenas quebra o ritmo.

De volta à ação: conforme os investigadores cavam evidências, vão aparecendo as camadas de verdade. Teddy desconfia que os médicos fazem experiências radicais com os pacientes – lobotomias, aplicações de psicotrópicos ilegais e profundas alterações nos cérebros dos internos. Enfermeiros dissimulados, revelações estranhas e um intrigante bilhete deixado pela mulher que fugiu conduzem a dupla até as conclusões.

Na segunda parte da trama, um furacão atinge a ilha, deixando-a sem energia elétrica ou comunicação com o mundo exterior. Os prisioneiros/ pacientes escapam e passam a circular por
todos os cantos. Nossos heróis são levados a adentrar a ala dos mais perigosos. Pronto. O suspense está garantido, na soma dos elementos: vozes ao longe, labirínticos e escuros corredores, goteiras, ruídos vindos de lugares desconhecidos. Técnica impecável. Scorsese quis surpreender. Será que consegue?

lha do Medo (Shutter Island, EUA, 148 minutos). Direção: Martin Scorsese.
Com Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Emily Mortimer, Michelle Williams.


DOSSIÊ MARTIN
Versatilidade. E Oscar aos 65.

Hoje com 67 anos, ele começou a fazer filmes em 1959, estreando com Vesuvius VI. Desde então, Martin Scorsese dirigiu clássicos como Táxi Driver (1976); Touro Indomável (1980); Os Bons Companheiros (1990), esses com Robert De Niro à frente do elenco. Ítalo-americano, ele elegeria depois outro ator com origem semelhante à própria para protagonista: Leonardo DiCaprio, estrela de O Aviador, de 2004; Gangues de Nova York (2002, com Daniel Day-Lewis, foto) e, juntamente com Matt Damon, também de Os Infiltrados (2006), filme que rendeu a Scorsese, aos 65 anos de idade, seu primeiro prêmio Oscar. O longa levou as estatuetas de melhor filme, melhor diretor, melhor montagem e melhor roteiro adaptado. Para entregar o símbolo do reconhecimento por seus pares, a Academia convocou ao palco do Kodak Theatre um time de pesos pesadíssimos do cinema norte- americano: Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg. Versátil, Scorsese dirigiu, em 1993, A Época da Inocência, drama de costumes com Day-Lewis e Michelle Pfeiffer. E em 2008 lançaria o documentário The Rolling Stones Shine A Light, sobre sua banda favorita. Mostrou os Stones no palco do Beacon Theatre de Nova York, pintando o retrato com ternura, mas nenhuma condescendência. (LHC)

 

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