Na
constelação de super-heróis dos quadrinhos
o Homem-Aranha sempre foi o menos atraente,
mas era uma novidade quando surgiu em 1962,
nos traços e palavras de Stan Lee e Steve
Ditko. Foi o primeiro a não combater o
mal, pois trabalhava por dinheiro. Sua
biografia, mais ou menos esboçada nos dois
filmes anteriores, é triste. Órfão, quando
ainda se chamava Peter B. Parker, criado
pelos tios, era inteligentíssimo, porém
tímido, sem vida social e desajeitado com
as garotas.
Até o
Super-homem, que veio de outro planeta, adaptou-se
melhor à vida. Era pobre, tinha doentes na
família, preocupava-se em escolher uma carreira
e com o valentão da escola, além de arrumar
uma namorada. Um dia foi picado por uma aranha
que havia sido exposta à radioatividade e
sua vida mudou. A picada provocou-lhe mutações
genéticas e descobriu seus superpoderes quando
um carro quase o atropelou, mas ele saltou
como um raio e grudou-se na parede de um
prédio, que em seguida escalou. Aquilo, sim,
poderia ser um ótimo emprego. Tanto que não
faz nada quando seu tio é assassinado. Preferia
tirar fotos dele mesmo para vender aos jornais.
No
mundo dos super-heróis, regido por uma
moral rígida, era uma exceção. Outra, e que
não agrada aos fãs de quadrinhos, é que passou
a ter sentimento de culpa por não ter socorrido
o tio. Antes dele, só Batman, remoendo sentimentos
sombrios, era daquele jeito.
Em
busca de redenção, o Homem-aranha chamou
os supervilões para a briga e eles vieram
com toda sua maldade. Chamavam-se Homem de
Areia, Venom (só estes dois aparecem neste
terceiro filme), doutor Octopus, Rei do Crime,
Abutre, Duende Verde. A tecnologia e um pouco
de magia ajudaram o Homem-aranha (Tobey Maguire).
Sua teia, fina e indestrutível, produzida
pelos genes alterados, ganha força em contato
com o ar. Ele tem lançadores de teias nos
pulsos e emite sinais amarelos para assustar
bandidos, que pode rastrear.
Sua
roupa, de lycra muito justa, é vermelha e
confortável. No entanto, criaturas asquerosas
que saem de um meteorito, mudam a cor do
uniforme para preto e atiçam o lado predador
do Aranha. Quem enxerga no escuro e já teve
um carro, o Aranhamóvel, destruído por um
inimigo. O Homem de Areia é o mais bizarro
e divertido dos vilões que agora o açoitam. É,
como o nome diz, uma montanha de areia de
notável perversidade, embora na sua versão "humana" seja
um ex-presidiário em disputa com sua ex-mulher
pela guarda da filha.
O
filme é a pancadaria em altíssimos decibéis
de sempre, mas nem um pouco sangrento porque
o Homem-Aranha, na versão do diretor Sam
Raimi, não mata ninguém, nem uma mosca, que
as aranhas de verdade adoram comer. Também
aconteceu com Raimi um fenômeno que mudou
sua vida, transformando-o de cineasta execrado
em craque de bilheteria. O bicho que o mordeu
foi um filme, A Morte do Demônio (ou Uma
Noite Alucinante), de 1983, considerado um
dos mais repugnantes já feitos, sendo proibido
em vários países.
Com
o passar do tempo, que tudo cura, esta colagem
de vários gêneros de horror acabou consagrada,
teve duas continuações e seduziu até Sharon
Stone, que produziu para Raimi o faroeste
Rápida e Mortal. Quando foi chamado para
dirigir Homem-aranha, já assinou contrato
para fazer o filme seguinte. Raimi se deu
bem na telona, mesmo sem fazer nada de excepcional.
Mais ou menos como Peter B. Parker, que continua
fotografando a si mesmo para vender aos jornais
e até arrumou uma namorada cantora que sabe
sua identidade, M.J. (a bonitinha Kirsten
Dunst). Tudo sem complexos de culpa e outras
complexidades da mente, do jeito que a petizada
gosta.), de
1983, considerado um dos mais repugnantes
já feitos, sendo proibido em vários países.