Crítica:
Por Erika Corrêa
Em
1981, o escritor norte-americano Thomas Harris
lançou o romance Dragão Vermelho,
em que apresentou aos leitores seu temível
personagem Hannibal Lecter, um serial killer
que praticava canibalismo. O livro se tornou
um best seller, e em 1986, ganhou sua primeira
adaptação para o cinema, com
o título Caçada ao Amanhecer,
dirigido por Michael Mann.
No
entanto, o canibal só se popularizou
em todos os cantos do mundo em 1991, com
a grande atuação do ator Anthony
Hopkins, no filme de Jonathan Denne, O Silêncio
dos Inocentes. O filme ganhou cinco Oscar,
dentre eles Melhor Filme, Melhor Ator e Atriz
para Jodie Foster.
Estava ai, disseminada
a promissora carreira de Hannibal, com diversas
seqüências
para a alegria da indústria cinematográfica
e para os bolsos dos produtores. Já para
os fãs do anti-herói, as seqüências
foram banalizando cada vez mais o intrigante
personagem.
O
canibal era uma espécie de criminoso
que causava empatia ao público, apesar
de toda sua crueldade. Muito disso se deveu
ao papel de Jodie Foster, em Silêncio
dos Inocentes. Ela compôs uma jovem
agente do FBI que está à caça
de um assassino que arranca a pele de suas
vítimas. Para isso, conta com a ajuda
do psicopata Hannibal e acaba por desenvolver
um relacionamento de cumplicidade com o canibal.
Em Hannibal,
de 2001, Jodie não aceitou
o convite para realizar a seqüência
e Hopkins contracenou com Julianne Moore.
Dirigido por Ridley Scott, o filme perdeu
o suspense psicológico e se tornou
muito mais violento e sanguinário.
Um ano depois, veio a refilmagem de Dragão
Vermelho, dirigido por Brett Ratner, que
tentou retornar a tensão psicológica.
Cinco
anos depois, Hannibal, A Origem do mal, de
Peter
Webber
(Moça com Brinco
de Pérola) mostra o motivo que levou
Hannibal a se tornar um assassino canibal,
se é que é possível
explicar ou justificar porque uma pessoa
se torna um psicopata.
Segundo a psiquiatria,
um psicopata é um
doente imputável. A diferença
com um psicótico é, justamente,
que o psicopata é perverso por natureza,
ele se mantém a par da realidade,
mas carece de superego. Isso torna ainda
mais inverossímil o filme, já que
a história mostra que Lecter teve
um trauma na infância muito grande,
sugerindo que isso o levou a se tornar
um psicopata.
O jovem
Lecter, interpretado pelo ator Gaspard Ulliel,
tem
os pais assassinados
durante
a Segunda Guerra Mundial, na Lituânia,
antiga URSS. Depois vê sua irmãzinha
ser comida por assassinos conterrâneos.
Revoltado, decide se vingar de todos eles.
Mas, inesperadamente, ele opta pelo mesmo
método que o traumatizou, passa a
assar suas vítimas e comê-las.
Talvez, ao participar do banquete da irmã,
tenha pegado gosto pela carne humana.
Lecter
ainda jovem conhece uma tia nipônica
(Gong Li) que se apaixona por ele, e o ensina
a usar espadas de samurai. Mas nem a beleza
e o seu amor são suficientes para
ele aliviar seus pesadelos e o sofrimento
do passado. Lecter prefere a carne de seus
inimigos a japonesa.
Assim,
nesta seqüência, o monstro
aparece cerca de 90% do tempo das cenas (Em
O Silêncio dos Inocentes foram apenas
18 minutos do total do filme), para tentar
convencer o espectador que sua perversidade
não é nata e, sim, o cruel
mundo o fez assim. Para quem tem neurônios,
perda de tempo total.