Crítica:
Por Erika Corrêa

Baseado no romance de Mario Puzo, O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, se tornou a trilogia sobre máfia mais famosa do cinema. Méritos não faltaram para contar a saga da máfia siciliana e a história de Don Corleone, eternizado pelo premiado Marlon Brando. A partir daí, proliferaram filmes do gênero que seguiam o estilo da grande obra-prima de Coppola, como Os Intocáveis (1987), de Brian de Palma e Os Bons Companheiros (1990), de Scorsese, só para citar dois ótimos filmes.

Agora, passadas mais de quatro décadas do lançamento do primeiro Poderoso Chefão, aparece novamente um filme sobre máfia revolucionário. Trata-se do italiano Gomorra, uma adaptação do romance homônimo do jornalista napolitano Roberto Saviano, que conta em detalhes as entranhas da Camorra, a organização criminosa responsável por assassinar uma pessoa a cada três dias, em média.

Publicado há dois anos na Itália, o livro vendeu um milhão de cópias em seu país e foi traduzido para mais de 40 línguas. O autor, de apenas 29 anos, foi jurado de morte pela organização e passou a viver escondido sob proteção policial 24 horas por dia. Com o lançamento do filme, vencedor do Prêmio do Juri em Cannes e concorrente ao Oscar (Melhor Estrangeiro), a máfia napolitana prometeu assassiná-lo até o Natal.

Adaptado pelo diretor Matteo Garrone, o filme não traz todos os detalhes e relatos do livro, mas faz um recorte seco e duro da realidade da periferia napolitana. Diferentemente de O Poderoso Chefão, não existe aqui nenhum tipo de glamorização do crime ou de personagens. Todos são ásperos como o meio em que vivem e temíveis como um passeio ao submundo da alma humana.

Se Corleone se preocupava em não entrar nos negócios de entorpecentes, os chefes camorristas têm no tráfico uma das principais fontes de lucro. Todos os códigos de conduta e tradições da Cosa Nostra, a máfia siciliana, não existem na napolitana. Eles estão muito mais próximos às organizações criminosas dos morros do Rio e as desavenças entre facções que brigam pelo controle dos negócios.

Além do trafíco, há personagens como o talentoso estilista Pasquale que depende de encomendas da Camorra. Suas criações são vendidas, sem crédito, em sofisticadas lojas européias e acabam vistas em celebridades, como no vestido de Scarlett Johansson, na cerimônia do Oscar. Então, totalmente sem incentivo, Pasquale se rende ao mercado de falsificações chinês.

Além da alta costura, a Camorra está envolvida com lixo tóxico, mostrado por um chefe camorrista, dono de aterros clandestinos e ilegais. Em uma das cenas mais brilhantes e chocantes, crianças de menos de dez anos dirigem os caminhões que descarregam o lixo no aterro.

Os dois jovens pertubados que não querem ser comandados e vivem à margem da Camorra, também delinqüem. Mas o desfecho que o filme reserva à esses personagens exalta o destino irreversível de quem vive nesse território dominado pela organização. E como aqui no Brasil, também existem os soldados-crianças italianos, que têm como aspiração entrar para o crime.

Gomorra incomoda por parecer um documentário. Não há herói, nem anti-herói. Não é um filme para se eternizar enquanto cinema como Poderoso Chefão, afinal Gomorra não parece entretenimento. Gomorra prova o crime emaranhado dentro do sistema econômico de cada país, simbiótico e aceito.  

Filme e livro levam essa alcunha não por acaso: Gomorra é o nome da cidade bíblica que teria sido destruída por Deus com fogo e enxofre devido à prática de atos imorais.
 

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