A opção pelo silêncio, sem trilha sonora, e pelo preto e branco transformam Garapa em um filme quase impossível de ser assistido. Mas a escolha do diretor José Padilha é a mais acertada, pois leva o público para dentro da realidade de três famílias do interior do Ceará e não mascara o seu cotidiano de fome e privação. Durante quase duas horas, as vidas de Lúcia, Robertina, Rosa e seus filhos são dissecadas como em uma cirurgia, o que faz com que o público sinta o horror da fome.
O diretor de Tropa de Elite realizou uma longa pesquisa sobre o tema antes de começar a filmar e isso o ajudou a definir o ritmo do filme. Para Padilha, o mais importante era mostrar o impacto da fome no dia-a-dia dessas três famílias e, por isso, decidiu filmar com lentes fixas sem qualquer som adicional. A decisão mostrou-se acertada. É quase impossível não se comover com a vida das três famílias, lideradas por mulheres que, apesar de tudo, ainda conseguem demonstrar carinho pelos filhos, mesmo nos piores momentos em que têm que alimentá-los apenas com água e açúcar, que chamam de garapa, para enganar a fome.
Ao acompanhar as três famílias Padilha buscou uma visão mais abrangente da situação da fome no país. Segundo os números da ONU, que são mostrados no final do documentário, 960 milhões de pessoas passam fome em todo o mundo. O objetivo do filme é mostrar o que acontece com as pessoas que enfrentam a falta crônica de alimentos. Ele mostra que as mães tentam alimentar os filhos e que o problema do alcoolismo entre os homens também agrava a situação dessas famílias.
O documentário alterna os depoimentos das três mulheres e sua tentativa de melhorar as condições de vida dentro de moradias totalmente precárias. Seus cotidianos são terríveis e a câmara não se afasta para diminuir o impacto de imagens brutais de crianças fragilizadas e nuas, sem qualquer alimento a não ser as mamadeiras de garapa.Lúcia vive na periferia de Fortaleza com suas três filhas e, às vezes consegue alimentos que pede a outras famílias e em uma ONG. Rosa moram no sertão com os três filhos e Robertina, com onze, filhos nos aredores da cidade de Choró. Das três, a última é a que consegue enfrentar melhor a situação em que se encontra.
O filme toca na questão das políticas de redução dos impactos da pobreza e da fome e constata que elas ainda são insuficientes, mas enfatiza que a situação seria pior sem elas. Antes de sua estréia oficial, hoje (sexta-feira), ele já foi exibido em sessões especiais e o objetivo do diretor foi alcançado. Ele está gerando mais discussões sobre a fome, a pobreza e a distribuição de renda injusta, violências que são muito mais graves que a provocada pelas armas porque elas destróem a essência do ser humano.