Crítica:
Por Lúcia Helena de Camargo

Você se considera realizado? Trabalha por vocação e prazer e tem ao seu lado o amor da sua vida? Se a resposta é sim, o filme Foi Apenas um Sonho, que estréia nesta sexta (30) nos cinemas, talvez não o toque muito profundamente, já que os questionamentos ao longo da trama tendem a atingir principalmente quem ainda está a procura de um sentido maior para a própria existência.

Nos anos de 1950, Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) casa-se com April (Kate Winslet). O jovem casal muda-se para a Revolucionary Road, cujo nome emblemático dá título ao longa. Eles assentam-se em uma casa espaçosa no subúrbio de Connecticut, com os dois filhos. O marido possui um emprego enfadonho no escritório novaiorquino da Knox, empresa para a qual já prestara serviços seu pai. Ela abandona as aspirações a atriz e torna-se dona-de-casa em tempo integral.

Ambos não deixam de cultivar, porém, aspirações de algum dia conseguir viver intensamente, libertando-se das amarras sociais que os limitam. Por esse motivo são admirados ou evitados por conhecidos e amigos. Ganham definitivamente a pecha de "exóticos" quando revelam os planos de largar a confortável vidinha e mudar-se para Paris.

Os vizinhos Milly (Katryn Hahn) e Shep Campbell (David Harbour), menos atraentes e menos ousados, veladamente os invejam. Seguros em sua rotina, apavoram-se com o passeio à beira do abismo proposto pela dupla jovem. A corretora de imóveis Helen Givings (Kathy Bates), tradição personificada, a princípio encanta-se, mas depois também assusta-se com a alta dose de pensamento heterodoxo do casal.

Seu filho John, recém-saído de uma instituição para tratamento de doentes mentais, é o único que parece compreender os motivos do plano de mudança radical arquitetado pelos Wheelers. Algo, porém acontece. E nem tudo sairá a contento.

Baseado no romance de Richard Yates, Foi Apenas um Sonho é dirigido por Sam Mendes. Esse britânico de sobrenome latino (com ascendentes em Trinidad y Tobago) sabe como poucos conduzir uma história original. Vencedor dos prêmios Oscar, Globo de Ouro e Bafta de melhor direção por Beleza Americana(1999), no qual já explorava mazelas varridas para debaixo do tapete pelos americanos, agora volta a jogar na tela situações nada confortáveis.

E ao fazer uma investigação sobre as aspirações e frustrações da classe média dos Estados Unidos na década de 1950, acaba por expor inquietações que acometem seres humanos de nacionalidades e épocas variadas.

As atuações de DiCaprio e Winslet contribuem bastante para o bom resultado, evidentemente. Ambos estão afinados e entranhados nos personagens, muitíssimo mais profundos do que daqueles interpretados por eles em Titanic, onze anos atrás. E a estupenda trilha sonora de Thomas Newman completa o tom ora cativante, ora desconcertante da trama roteirizada por Justin Haythe.

Quanto tempo pode durar uma paixão? Render-se às convenções ou trilhar um caminho único, ainda que isso custe tudo que se tem? De quantas decepções é feito um adulto? Pode-se mudar o destino ou aquilo que seremos já está marcado? Essas e outras perguntas surgem durante a projeção. Não é pouco.

Qualquer pessoa que entre na sala escura sem a crença absoluta em dogmas ou verdades pré-estabelecidas poderá encontrar no filme motivos para se encantar com a maestria do diretor em exibir a construção e desconstrução de duas pessoas comuns que resolveram parar para pensar.

 

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