Crítica:
Por Erika Corrêa

     Filmes de doentes terminais costumam ser recheados de chavões. Normalmente, despertam um sentimento aclamado de piedade no espectador. No caso de O Escafandro e a Borboleta, de Julian Schnabel – vencedor de Melhor Direção no Festival de Cannes e Filme Estrangeiro no Globo de Ouro – a emoção pode provir de outro adereço.

Não que o personagem principal não evoque nenhuma compaixão: um homem jovem de 43 anos, que é acometido por um derrame cerebral subitamente e fica completamente paralisado. A questão é que o roteiro do filme e o desenrolar da história funciona como um antídoto às nossas reclamações supérfluas, quase uma injeção de energia.

Mas para ser inebriado com essa sensação de plenitude, de que a vida é curta e deve ser vivida da melhor maneira possível, é preciso enfrentar cenas duras e muitas vezes aflitivas.

Logo nos primeiros minutos acompanhamos o despertar de um coma de três semanas de Jean-Dominique Bauby (Mathieu Amalric), redator-chefe da revista Elle, em um hospital naval no sul da França.

Tudo o que captamos em imagens é através do olhar do protagonista. A porta do seu quarto, a televisão pendurada, enfermeiras e médicos entrando e saindo. Após o AVC, Jean Do mexe apenas o seu olho esquerdo, ele está preso dentro do seu escafandro.

Então, nos primeiros 40 minutos do filme somos transportados ao novo mundo enquadrado do redator. Só que além desse mundo real, voamos para outros horizontes conduzidos pela imaginação e a memória de Jean Do. Assim, é possível provar os sabores dos frutos do mar vorazmente, desconfiar de sua vulnerabilidade amorosa, reviver seu drama, participar de seus sonhos.

Imperceptivelmente a câmera se afasta e passa a enxergar, então, Jean Do. Não são mais apenas seus olhos que falam. Mas é por meio deles que Jean Do se comunica com os outros. Uma fonoaudióloga lhe ensina arduamente a formar letras, palavras e frases por meio de suas piscadas. Ele escreve um livro.

O diretor Julian Schnabel não parece ter escolhido essa história verídica por acaso para filmar. Ele já havia se debruçado em vidas aprisionadas de outros artistas. Seu primeiro longa-metragem, Basquiat Traços de uma Vida, tratava da biografia do pintor escravizado pelo vício da cocaína, no sucesso Antes do Anoitecer, ele retratou a vida do escritor gay Arenas, encarcerado durante o regime ditatorial de Fidel Castro. Aqui, mais um excelente trabalho, enclausurado, para voar como borboleta.

 

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