Crítica:
Por Erika Corrêa

Vencedor da Palma de Ouro no último Festival de Cannes e sucesso de público na França, “Entre Os Muros da Escola”, de Laurent Cantet (Em Direção ao Sul/2005) retrata o cotidiano de uma classe do ensino médio em uma escola pública do subúrbio parisiense. 

A história baseado no livro homônimo de François Bégaudeau (lançado no Brasil pela editora Martins Fontes) mostra a relação conflituosa entre professores e alunos e com isso consegue se estender por um universo muito mais abrangente do que o âmbito escolar e docente. A trama sustentada por diálogos afiados e longos expõe a ácida relação entre os imigrantes, em maioria árabe e africana, com os franceses.

François Marin (interpretado pelo autor do livro François Bégaudeau) é professor de francês e tem a árdua tarefa de ensinar gramática, poesia, literatura francesa para alunos que nem sequer compreendem o idioma direito. Os que não se entravam com a língua, vão se aturdir com os costumes e tradições do País.

Assim, um nome escrito na lousa pelo professor como exemplo de um exercício torna-se problema: “Por que você sempre usa Bill?” questiona a aluna Khoumba, sugerindo outros nomes de etnologia árabe e iniciando uma longa discussão sobre preconceito. Uma conversa sobre futebol é capaz de uni-los à nação e, também, devolvê-los às suas raízes. Vale lembrar que o craque Zidane é argelino. E quando o jogador de descendência antilhana Thierry Henry entra em campo pela seleção francesa, o aluno pergunta: Devo torcer pela França, país no qual ele nasceu, ou para as Pequenas Antilhas, nação dos meus pais?

Mas nem sempre as discussões giram em torno de temas amenos. A sala de aula vira, muitas vezes, um verdadeiro ringue, com direito a xingamentos, agressões físicas, alvoroço e expulsões.  

A questão racial é tensa de um modo geral na França. Não apenas por causa dos franceses e menos ainda dos professores. Os próprios imigrantes “se querem” excluídos. São eles a manterem suas religiões, línguas e trajes em um país estrangeiro e aí, claro, a se acharem os diferentes. Também fazem os serviços piores, mais braçais e vão se alocando em guetos e, sem dúvida, vão se sentir injustiçados.

Os franceses, por sua vez, viram uma sociedade mestiça sem querer fazê-lo, pois não é a vocação deles, como a nossa. A França é centralizadora e vaidosa para esse tipo de coisa e pousa um olhar de condescendência e piedade sobre os outros.

Para os franceses, os imigrantes de hoje correspondem ao mesmo papel do “bom-selvagem” de outrora. É importante que eles assimilem a cultura “civilizada”: a francesa. No filme, os professores se unem para que um aluno chinês não seja deportado. Ele é ótimo estudante e evoluiu muito no aprendizado francês. Por outro lado, para o aluno africano, rebelde e com difícil aprendizado, eles votam pela expulsão da escola. “Entre os Muros da Escola” é um filme sensível e imperdível.

 

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