Crítica:
Por Erika Corrêa
O
título original “Come Early
Morning” diz muito mais do que a
versão em português “Encontros
ao Acaso”. Em inglês a expressão “Voltando
de manhã cedo”, expressa exatamente
o que a personagem-protagonista faz desde
a primeira tomada do filme. Junta suas
roupas espalhadas pelo chão de um
quarto de Motel e sai de fininho de volta
para casa depois de dormir com um desconhecido.
Para
os dias atuais, repleto de relacionamentos
relâmpagos
e banais, transar no final de uma noite
de bebedeira, não parece uma atitude
de estarrecer e chocar. A questão é que
Lucille (Ashley Judd) não é mais
uma adolescente e não
mora em uma grande cidade.
Ela
já tem
seus trinta anos e está em North Litle
Rock, uma pequenina cidade do Arkansas, interior
dos EUA. O bar que freqüenta é sempre
o mesmo, e pelo que tudo indica o único
do local. Para piorar, Lucille conhece todo
mundo: o barman, o companheiro de sinuca,
a ex-amante de seu pai. Então seus
parceiros são
sempre forasteiros e visitantes que retornam
esporadicamente.
Apesar
de tentar se comportar como uma mulher sem
preconceitos,
o que ela atravessa é bem o contrário.
Logo na primeira seqüência do
filme, em que retorna para casa com sua
caminhonete velha, revela ao espectador
uma expressão
de ressaca moral enorme.
A
amizade de Lucille com Kim (Laura Prepon),
a companheira
que
divide a casa, também delata, aos
poucos, suas frustrações,
e a idealização que ela faz
do que seria o papel de uma mulher resolvida
e independente. Assim travava-se o diálogo,
no qual Lucille desiludida com a possibilidade
de um pretendente ligar para marcar um
segundo encontro questiona a amiga: “Você não
se cansa de esperar o cara telefonar no
dia seguinte?” Kim responde: E você,
nunca se cansa de não
esperar?
O
filme mostra que Lucielle tem um pai alcoólatra,
um guitarrista talentoso que só sobe
ao palco chapado. Caso contrário,
sua timidez o deixa atrás das cortinas.
Ela visita o pai, em busca de descobrir
a si mesma. Em abstinência, o pai
freqüenta uma igreja evangélica
e Lucielle o acompanha aos cultos de domingo.
Todavia,
sua salvação
e as respostas que procura não estão
nas falas exacerbadas do pastor de cabelinho
tigela e muito menos na hereditariedade
do alcoolismo.
Quando
Lucille se depara com a pergunta: “Qual
foi à última
vez que você transou sóbria?” de
um cara que quer e está tentando
ter um relacionamento com ela, é que
vai precisar desnudar e enfrentar seus
medos e monstros.
Ficar
escondida, suportando a dor de uma ressaca
a outra,
ou abrir
a ferida e encarar de frente suas limitações
e necessidades, é o que Cal (Jeffrey
Donovan), o cara em questão, promove
em Lucille. E o processo pode ser mais
lento e pesado do que transportar uma juke
box velha de trás
de uma picape.
Estréia
na direção da atriz Joey Lauren
Adams, que concorreu ao Globo de Ouro de
Melhor Atriz por seu papel em Procura-se
Amy/1997, Encontros ao Acaso foi indicado
ao Grande Prêmio do Júri
em Sundance 2006.
Segundo
Joey, a história
foi inspirada em sua adolescência,
que viveu na mesma cidadezinha do filme.
De qualquer forma, a necessidade de ter um
parceiro ou um relacionamento estável
não parece coisa só de cidade
country. É possível que boa
parte do público saia da sala de cinema
com alguma identificação.