Crítica:
Por Erika Corrêa

     De tempos em tempos, Hollywood lança um musical teenager, ancorado em um romance açucarado e na garantia de um final feliz. O conteúdo da trama é o que menos conta neste tipo de filme. O importante é que a música-tema se torne um hit, as coreografias sejam reproduzidas nas casas noturnas e o estilo dos personagens copiado pelos jovens.

     Assim foi com Os Embalos de Sábado à Noite, em 1977, que transformou a disco music em religião, fez surgir uma legião de imitadores de John Travolta por todo o mundo e teve sua trilha sonora, composta por diversas músicas do grupo Bee Gees, na lista dos discos mais vendidos.

     Em seguida vieram sucessos como Flashdance/1983, que ganhou o Oscar de Melhor Canção Original com What a Feeling e Dirty Dancing/1987, que lançou Patrick Swayze como uma espécie de galã-dançarino e tornou a melosa canção The Time of My Life, de Bill Mebley, em uma das mais tocadas nas rádios.

     Em plenos anos 2000, Hollywood recorre à antiga fórmula do musical para adolescentes em Ela Dança, Eu danço, estréia da coreógrafa Anne Fletcher na direção. Segundo a diretora, “já era tempo de trazer de volta o gênero com uma versão renovada e inspirada em assuntos e estilos mais novos”.

     O ritmo eleito desta vez foi o hip hop, e é difícil acreditar que os milhões da indústria fonográfica norte-americana não tenham influência nesta escolha.

     Ao contrário, em os Embalos... a discoteca já estava em decadência. O filme é que foi responsável pela volta da moda, ou seja, ninguém esperava esse estouro e as cifras dos estúdios não interferiaram na escolha da trilha.

     Quanto ao novo galã-teen o papel coube ao ator Channing Tatum, que recebeu recentemente um prêmio de crítica em Sundance pela sua performance no filme independente “A Guide to Recognizing Your Saints”.

     Ele é Tyler Gage, um jovem rebelde de família pobre, que vive entre os negros da cidade de Baltimore. Para ser aceito neste mundo, Tyler aprende a dançar hip hop como ninguém. Mas isso não o livra de arrumar confusões. Um dia, invade e depreda uma escola de artes e ao ser pego pela polícia, tem como punição prestar serviços à comunidade na própria escola.

     É entre uma vassourada e outra, um esfrega vidro aqui e limpa ali, que Taylor conhece Nora (Jenna Dewan), uma “bem-nascida” bailarina da escola. Ela está procurando alguém que substitua seu parceiro de dança que se machucou, em uma importante apresentação. Quem será que vai fazer par com ela?

     O problema de Ela Dança, eu Danço não são os clichês do romance entre a moça rica e o garoto pobre, que vai ter que lutar pelo seu espaço e provará seu sucesso no palco, com o apogeu da dança final – sempre a parte mais esperada em filmes desse gênero. Mas, sim, reduzir a nova geração a um modelo plastificado e moralista norte-americano.

     A questão racial é colocada como se houvesse os negros maus e os bons, e tudo fosse questão de escolha própria e força de vontade. O assassinato da trama e o negro pobre inserido na escola de artes fortalecem essa visão preconceituosa.

     Em Ela Dança, eu Danço, apenas os pobres são desajustados. Não existe jovem rico rebelde, em crise existencial ou que transgrida. Aliás, em ambos os lados sociais questões como drogas e sexo não fazem parte do tal contexto “renovado” que a diretora diz ter se baseado.

     Até o musical Grease, nos Tempos da Brilhantina/1978, lançado há quase trinta anos, e que retratava a juventude dos anos 50, trazia questões como a gravidez de adolescentes. Desse jeito, dificilmente, Ela Dança... vai emplacar em outros cantos.

 

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