Conhecido
como Hollywood do mundo árabe, o
Cairo, capital do Egito, é o maior
produtor e exportador de cinema do mundo
islâmico. No entanto, pouco se conhece
sobre suas produções no Brasil,
já que são raras as exibições
por aqui, salvo algumas mostras e festivais
específicos.
Edifício
Yacoubian, o filme mais caro da história
do cinema do Egito (quase R$ 8 milhões),
entra em cartaz no grande circuito, e é uma ótima
oportunidade para conferir um filme com elenco,
direção, roteiro e finalização
toda realizada no Cairo.
Em
sua estréia
em longa-metragem, o diretor Marwan Hamed
provocou polêmica,
já que o filme, baseado no best-seller
homônimo do escritor Alaa Al Aswany,
levanta temas tabus para o mundo muçulmano,
como prostituição, homossexualismo
e corrupção.
No
ano passado, quando foi lançado
no Egito, alguns deputados chegaram a pedir
ao Parlamento que fossem cortadas cenas do
filme. Hamed ameaçou retirar as fitas
de cartaz caso isso acontecesse. E o alvoroço
só acarretou, para sorte do diretor,
recordes de bilheteria por lá.
A
narrativa não é original
para nós, como muitas produções
foca no cotidiano de moradores de um edifício
decadente. O inédito é que
esse edifício está situado
no centro do Cairo, e consequentemente, os
personagens revelam a cultura, preconceitos
e costumes de um país africano moderno
e islâmico.
Construído
nos anos 1930, o Yacoubian pouco guarda da
glória de outrora
quando se hospedavam gente importante e renomada.
O único que conservou a elegância
de um aristocrata é Zaki El Dessouki
(Adel Imam), filho de um antigo pachá,
que mantém um escritório no
edifício. Mesmo com idade avançada,
ele é mulherengo e beberrão,
e usa o escritório para encontros
com prostitutas.
Um
dia acaba por se envolver com Bothayna (Hend
Sabry),
muito
mais jovem, que vive
na cobertura do Yacoubian, que virou um cortiço.
Ela está decepcionada com os homens,
já que o proprietário da loja
de roupas que trabalha a assedia sexualmente.
Paradoxalmente, encontra na gentileza e requinte
de Zaki, um conforto.
Por
outro lado, Bothayna terminou o namoro com
Taha
El Shazly,
(Mohamed
Imam), filho
do zelador. Este decepcionado por não
passar em um concurso para polícia
por causa de suas origens humildes, acaba
por se aliar a um grupo fanático-religioso.
E
não
acabam por ai os personagens que de alguma
forma
esbarram em problemáticas
sociais. Haj Azzam (Nour El Sherif) é um
antigo sapateiro, que se tornou um rico proprietário
de uma rede de lojas com apoio ilícito
de figurões do governo.
O
personagem de Haj Azzam traz à tona
grandes diferenças culturais com o
Ocidente. Claro, que não pela questão
da corrupção, tão conhecida
aqui, mas quando se casa com sua segunda
esposa, fato corriqueiro no mundo muçulmano.
A
nova esposa, a jovem Soad (Somaya El Khashab)
ele mantém
trancada num apartamento do Yacoubian e
quando ela engravida contra
sua vontade, a devolve para a família.
O
mais polêmico
personagem é o
jornalista homossexual Hatem Rashid (Khaled
El Sawy), que se apaixona por um oficial
da segurança. A sedução
que o jornalista rico usa para atrair o saldado
pobre e heterossexual à cama é um
ponto forte.
Se
os ensinamentos do Alcorão, segundo
os fiéis, condenam claramente a homossexualidade, é de
dentro dessas citações que
Haten aproveita para amenizar a culpa do
amante. “A pior coisa do adultério é um
filho bastardo, a relação entre
homens não ocasionam filhos”,
tempera.
Do
extremo da Arábia
Saudita, onde o homossexualismo é punido
com pena de morte ao Líbano, em que é já existe
uma associação aberta de gays
e lésbicas, os homossexuais dos países árabes,
em geral, vivem à margem.
E, provavelmente
este tema, foi o que mais incomodou os conservadores
no Egito.
Perto
de nossas fitas, nada há de chocante
nas cenas de sexo. O máximo que
a película expõe é um
homem que deita de bruços à espera
do amante.
Todavia,
a história
peca ao desfechar de forma simplista a opção
sexual do personagem jornalista. Em flash
seu passado revela uma mãe promíscua,
um pai ausente e um estupro pelo pajem, espécie
de criado.
Assim,
claramente há uma posição
obtusa a respeito da questão, como
se tudo não passasse de aberrações
e traumas. Perde ao não deixar que
o espectador faça seu julgamento.
O
diretor ainda se mostra calouro ao optar
por um
filme
longo
demais (2h40min). O apego às
imagens e a dificuldade em realizar cortes é característica
normal dos principiantes. Agora é torcer
para que os próximos filmes que realize
cheguem por aqui para vermos a evolução
de um cineasta que começa bem.