Crítica:
Por Paula Cunha

Famílias com relacionamentos difíceis e marcadas pela sombra de segredos e mistérios insolúveis não são uma novidade no cinema. O que salva em parte a produção francesa Diário Perdido é a atuação de seu elenco afiado, com destaque para Catherine Deneuve, já que o roteiro explora de forma convencional os sentimentos que dividem três gerações de mulheres de uma mesma família. Outra saida que salva o filme do convencional é a maneira como utiliza um recurso conhecido, o flashback, para explicar o principal mistério da trama.

Quando volta para casa grávida, Audrey (Marina Hands) tem como principal preocupação decidir se continua uma gravidez inesperada ou se viaja para a Inglaterra e faz um aborto. Mas é quando tem que conviver diariamente com a mãe, Martine, (Deneuve) é que constata que não é a única que passou por traumas e tem dificuldade para superá-los. A distância com que é tratada pela mãe é forte e a sequência em que a vê rejeitar um presente que comprou para ela (uma câmera fotográfica) marca o ritmo da visita.

Esta situação é o passo inicial para mostrar como três geraçtes de mulheres desta família enfrentaram dificuldades, obstáculos e preconceitos para mudar os seus destinos. Os resultados foram diferentes para cada uma delas e as afetaram de forma definitiva. Para mostrar o que realmente aconteceu com a mais velha (Louise, vivida por Marie-Josée Croze), o roteiro lança mno de um recurso inteligente, na verdade o melhor do filme. Audrey, após encontrar o diário da avó escondido atrás de uma pia, descobre os segredos familiares nunca bem explicados pela mãe. O recurso de fazer com que a jovem leia as memórias da avó e passe a conviver fisicamente com estes acontecimentos é o melhor do filme. Este convívio confere um tom surreal à narrativa, atrai a atenção do público e evita que ele caia na armadilha do clichê "história para mulheres".

Por isso, a atuação de Catherine Deneuve também é outro elemento que consegue salvar o filme. A atriz acerta ao intensificar a rejeição inicial que sua personagem sente pela filha e sua rejeição às tentativas de aproximação. A medida que os segredos de Louise são revelados, as barreiras que criou desmoronam e toda a frustração provocada pelo relacionamento traumático com os pais são mostrados brilhantemente pela atriz.

Este é o quarto filme dirigido por Julie Lopes-Curval, que iniciou sua carreira como atriz no filme Le Collecteur, em 1992. Ela também é roteirista e a produçno de 2002, Bord de Mer recebeu o prêmio Câmera D’Or.

Ficha técnica:
Diretora: Julie Lopes-Curval
Elenco: Catherine Deneuve, Marina Hands, Marie-Josée Croze, Michel Duchassoy, Jean-Phillippe Éccoffey, Carole Franck, Éleonore Hirt, Gérard Watkins, Romano Orzari
Produção: Alain Benguigui, Thomas Verhaeghe
Roteiro: Sophie Hiet
Fotografia: Phillipe Guilbert
Ano de produção: 2009
França/Canadá

 

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