Como
o tempo passa, e o tempo só serve
mesmo para passar. Chama-se a isto passatempo.
Mas certamente não foi pensando neste
ensinamento popular brasileiro que o inglês
Tony Scott fez Déjà-Vu, uma
trama policial-terrorista cheia de tiros
e explosões que se explica já no
título, em francês mesmo – já visto,
uma reprise de uma enxurrada de filmes tão
parecidos com este. Mas Tony, o irmão
mais novo e menos aclamado de Ridley Scott
(embora tenha dirigido astros de primeira
como Catherine Deneuve, David Bowie, Tom
Cruise e Nicole Kidman, quando eram casados),
tem uma pretensão maior para dourar
sua pílula de lata.
A história que conta é também
de ficção-científica,
gênero dos mais ricos, e sua matéria
prima é justamente o tempo que passa,
podendo até ser revisitado. Não
se sabe o que o francês Alain Resnais,
o grande cineasta da memória, pensaria
deste filme. Da ilusão e do enigma
do tempo, quando o antes é o depois,
e o depois da manhã se passou no ano
passado em Marienbad, título de um
dos seus filmes, com a abolição
dos ponteiros burocráticos dos relógios
que regula os seres vivos, mas não
os mortos.
A ficção assim encarada é devaneio,
tempo perdido na busca, e uma questão
filosófica para lá de complicada.
Nada que caiba nos moldes do cinemão
comercial do qual Déja-Vu, como se
sabe já visto e revisto, se enquadra.
Mas a tentativa, embora desastrada, pelo
menos foi feita.
O filme vive de uma
estranhíssima
máquina do tempo aliada à não
menos bizarra obsessão pela espionagem
eletrônica. Acontece que uma barca
com 543 pessoas a bordo explode e todos morrem.
Entra em ação um policial daqueles
bons (Denzel Washington), que logo constata
que aquilo foi provocado por uma bomba. Então
ele penetra num mundo de fantasia de impensável
qualidade tecnológica. Guiados por
satélites, aparelhos fora do comum
filmam e gravam a voz de todo mundo, numa
versão ultra moderna do clássico
1984, e captam imagens e sons de pessoas
mortas, antes que tenham morrido, como se
uma equipe de tv estivesse acampada na casa
delas.
É tentação demais para
um policial bonito e durão como Denzel
Washington, até porque uma geringonça
que faz viagens pelo tempo o conduz à presença
de uma insinuante morena (Paula Patton) morta
na explosão mas que, muito viva, mostra
que não é bem assim. Ela não
está mais entre os vivos, mas todo
filme otimista sabe que sempre há uma
nova esperança para os mortos.
O mesmo transporte
temporal o leva até o
terrorista assassino (Val Kilmer), antes
que ele cometa seu crime com a bomba, e a
morena morta-viva o ajuda, trajando um modelinho
vermelho salpicado de branco. Esta proeza
do belo policial se dá numa sala onde
dois técnicos falam na linguagem abstrusa
dos computadores como é possível
acabar com esta noção obsoleta
de tempo.
Este é o estofo obscuro do filme,
que na sua superfície é só uma
sucessão de tiros, correria e gritos.
Já vistos, todos os dias. Vale um
pouco pela originalidade de misturar mortos
com vivos e pela desmoralização
dos relógios, embora feitas muito
de raspão.