Crítica:
Por Gustavo Mayrink

     O quase sempre fúnebre e sombrio período da ditadura militar (1964-1985) continua rendendo reflexões e inspirando os cineastas brasileiros. Parece mesmo um assunto inesgotável, desde que o diretor Paulo César Saraceni empunhou uma câmera na mão para produzir O Desafio, um marco no gênero, apenas alguns meses após o golpe.

E passando por clássicos como Terra em Transe, de Glauber Rocha, e Pra Frente, Brasil, de Roberto Farias, também feitos sob o fogo dos acontecimentos, até o badalado O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburguer, os fantasmas e as feridas dos anos de chumbo seguem habitando nossas telas de cinema.

Para engrossar esta lista, entra em cartaz esta semana Corpo, filme de estréia do casal de diretores paulistanos Rossana Foglia e Rubens Rewald, para contar a saga de Artur (Leonardo Medeiros), um solitário médico legista que se depara com uma inusitada descoberta.

Artur passa os dias entre fígados, rins e pulmões tentando deduzir como foi a vida dos cadáveres que examina, buscando assim divagar sobre a causa de suas mortes. Quando não está no necrotério, perambula por São Paulo observando minuciosamente as pessoas como se fossem defuntos, imaginando pseudo-obituários.

Sua melancolia é quase patológica: ele beira os 40 anos, ainda mora com os pais e se sente frustrado e sufocado profissionalmente por sua supervisora, a gélida Dra. Lara (Chris Couto).
A rotina de trabalho no IML se quebra com a chegada de ossadas encontradas em uma vala comum, supostamente relacionadas a vítimas do regime militar, junto com um corpo misteriosamente bem conservado. Instigado com a descoberta, Artur resolve investigar sua origem.

Entre arquivos e documentos do DOPS, a obsessão do legista o leva a Fernanda (Rejane Arruda), uma espevitada e sedutora atriz de teatro alternativo que teria alguma relação com aquele corpo e passa a ajudar Artur nesta empreitada.

A partir daí, o que se insinuava como um filme original começa a se arrastar por histórias cruzadas com flash-backs confusos, pretensiosamente permeados por uma “narrativa lacunar”, nas palavras dos próprios diretores, colocando em prova a paciência do pobre e mortal espectador.

E apesar da boa fotografia em tons azulados, que ressalta o ambiente frio das salas de autópsia e dos convincentes efeitos de maquiagem dos cadáveres, fica faltando a este Corpo um pouco mais de vida.

 

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