Crítica:
Por Lucia Helena de Camargo
Sujeitos que passam a vida abusando de álcool e drogas sempre dão bons personagens para o cinema. Principalmente se por trás dos excessos há talento de verdade, como Ray (2004), sobre a conturbada trajetória de Ray Charles, personificado por Jamie Foxx; ou Johnny e June (2005), no qual Joaquin Phoenix vive o cantor de música country Johnny Cash, que chegou a gravar com Elvis Presley, mas entra no caminho da autodestruição por drogas até aparecer June Carter (Reese Whiterspoon). Também no terreno das canções country vive Bad Blake, personagem de Jeff Bridges em Coração Louco, estreia desta sexta (5).
Ele bebe demais, fuma além da conta, não se importa com a própria aparência, pouco cuida da alimentação e higiene pessoal. No passado um grande sucesso – as senhoras de meia idade o adoram –, ele já não é mais convidado para tocar em estádios ou grandes casas de show. Sobrevive cantando para públicos menores, em bares e boates. Um ex-pupilo seu, Tommy (Colin Farrell), com quem cortou relações, é o garoto da vez do country, no topo das manchetes e na vendagem de discos. Quando Bad é convocado a fazer a abertura do show de Tommy, entram em cena questões financeiras e antigos rancores.
Para complicar mais ou facilitar – dependendo do ponto de vista – Bad aceita ser entrevistado pela repórter Jean (Maggie Gyllenhaal), que começa a tirar a poeira da camada superficial e vai descobrindo o homem sagaz que está embaixo daquele amontoado de más lembranças. Um dos seus charmes, que a conquista, é a maneira direta. “Qual a coisa mais importante a seu respeito?”, indaga ele. A pergunta a faz pensar. Ela responde, mas ninguém antes a tinha questionado dessa maneira. Bad é do tipo que sabe falar a frase certa na hora certa. Romance à vista, mas nem tudo cai se encaminhar da melhor forma possível.
Jeff Brigdes é um dos cinco indicados do ano ao Oscar por sua atuação no filme. Já levou o Globo de Ouro e agora é o favorito. Merece. Em todos os 112 minutos do longa o ator oferece uma interpretação plena, sem afetações e terna desse sofrido cantor country. Fosse necessário escolher uma única sequência a ser premiada, seria aquela na qual permanence imobilizado pelo estupor, na porta da casa da namorada, que lhe veta a entrada. Cabelo desgrenhado ao vento, ele pouco se move. Mas em sua fisionomia ocorre, em poucos segundos, uma transformação tão avassaladora que o espectador sente na própria pele toda a dor que provoca aquela recusa.
O filme concorre ainda a prêmios em duas categorias: melhor atriz coadjuvante para Maggie Gyllenhaal e melhor canção original (The Weary Kind), de do compositor e produtor T Bone Burnett, e Ryan Birgham, também já premiada com o Globo de Ouro, pelo Las Vegas Film Critics Society Awards e mais uma meia dúzia de outros prêmios.
“Coração Louco” é baseado no livro de Thomas Cobb e roteirizado, produzido e dirigido por Scott Cooper. É bom de ver porque não fala de redenções milagrosas. Mostra apenas um sujeito mal ajustado tentando fazer menos besteiras para sobreviver. E Jeff Bridges canta de verdade.
Coração Louco (Crazy Heart, EUA, 2009, 112 minutos).
Direção:Scott Cooper. Com Jeff Bridges, Colin Farrell, Paul Herman, Maggie Gyllenhaal , Robert Duvall.