Inglaterra,
meados da década de 70. Enquanto
a capital Londres assistia de camarote
a invasão do Sex Pistols, a quilômetros
dali a cinzenta, fria, industrial e pacata
cidade de Manchester presenciava o nascimento
do Joy Divison. Capitaneado pelo perturbado
Ian Curtis, o grupo foi responsável
por criar uma música inovadora,
que mesclava elementos sonoros do punk
rock com melodias soturnas do Kraftwerk
e influências de David Bowie, Iggy
Pop e Lou Reed. O sucesso foi quase que
instantâneo!
Este é o cenário de Control,
filme que marca a estréia na direção
do fotógrafo holandês Anton
Corbijn, conhecido por videoclipes do Depeche
Mode, U2 e Mettalica. Baseado no livro Touching
From a Distance, de Deborah Curtis, viúva
do cantor, o longa-metragem retrata a trajetória
do músico desde o projeto Warsaw passando
pelo auge e o fim do Joy Division. É verdade
que a banda durou pouco mais de três
anos, gravou apenas dois álbuns – Unknown
Pleasure (1979) e Closer (1980) – mas
ainda hoje soa atual e é reverenciada
por amantes da música por pérolas
como “Transmission” e “Love
Will Tear Us Aapart”.
Control documenta
o conturbado cotidiano de Curtis, as relações com
a mulher Deborah (Samantha Morton) e com
a amante belga Annik Honoré (Alexandra
Maria Lara), e a luta do cantor contra a
epilepsia. Também não deixa
passar em branco os dias de glória,
conquistado com muita determinação,
tão pouco o fatídico 18 de
maio de 1980, véspera da primeira
turnê americana do grupo e data em
que Curtis, aos 23 anos, se suicidou.
Filmado em preto e
branco, Control vai além
da simples cinebiografia de um rockstar.
Traz, claro, doses de sexo, drogas e muito
rock’n’roll, ingredientes fundamentais
neste tipo de investida. Mas a maior diferença
está em abordar a vida de Ian Curtis
e explorar com perfeição o
lado pessoal do personagem, com todos os
seus conflitos, aflições e
angústias. O principal responsável
pelo feito é o inglês Sam Riley,
que protagoniza a película.
Sem a legião de fãs ou a experiência
de atores como Val Kilmer (que encarnou magistralmente
Jim Morrison em The Doors, de 1991, de Oliver
Stone) ou de Joaquin Phoenix (que em 2005
deu vida ao ícone da música
country norte-americana Johnny Cash no filme
Johnny e June, do diretor James Mangold),
Riley dá um show na pele de Curtis.
Parece viver intensamente todos os momentos
registrados nos cerca de 120 minutos da produção.
Vocalista da banda
indie 10.000 Things, Riley começa impressionar pela semelhança
física com Ian Curtis. Mas é ao
assumir os vocais nas performances ao vivo
da banda que o aspirante a músico
e ator – sim, Riley interpretou Mark
E. Smith, do The Fall, no longa-metragem
24 Hour Party People, de 2002, do diretor
inglês Michael Winterbottom, que por
aqui ganhou o nome de A Festa Nunca Termina – incorpora
Curtis com perfeição.
Nada comparado a Michael
Pitt, que interpreta um sonolento Blake
em Last Days, filme de
Gus Van Sant que retrata os (imaginários!) últimos
dias de Kurt Cobain, ídolo da geração
grunge e que também teve um trágico
fim. Seja no chão durante um ataque
epilético ou mesmo no palco com sua
esquizofrênica dança, Riley
fecha os olhos e deixa o espírito
e a áurea de Curtis tomar conta de
seu corpo.
Como se não bastasse, o filme, vencedor
do prêmio Câmera de Ouro no Festival
de Cannes, tem na trilha sonora outro ponto
a favor. Além de clássicos
do próprio Joy Division, estão
no repertório nomes como The Velvet
Underground, Roxy Music, Buzzcocks e New
Order, formada pelos remanescentes do grupo
após a morte de Curtis. Por essas
e outras, Control descarta qualquer contra-indicação.
Ele é perfeito para fãs do
gênero, seja o amante de música
ou de cinema. Porque o resto é pura
história...
OUTRO PAPO – Lendas, boatos, verdades,
mentiras... Existe uma pitada de todos estes
ingredientes na trajetória de qualquer
grupo de rock que se preze. O caso do quarteto
inglês Joy Division não é diferente.
Agora, porém, um significativo material
sobre diversos episódios que envolvem
o grupo de Manchester pode ser desvendado.
Tudo por conta de um documentário
dedicado à banda, batizado simplesmente
Joy Division.
Uma das grandes atrações do
festival Tudo é Verdade, que passou
por aqui no começo do ano, a produção
chega na cola do filme Control. Mas não
espere ver mais do mesmo. Aqui, a conversa é outra.
Principalmente para quem é fã do
grupo formado por Ian Curtis, Peter Hook,
Stephen Morris e Bernard Sumner.
Diferente do longa-metragem
do holandês
Anton Corbijn, que foi baseado no livro Touching
From a Distance, de Deborah Curtis, esta
produção traz como principal
destaque inúmeras entrevistas realizadas
com pessoas que: ou protagonizaram ou conviveram
de perto com o quarteto de Manchester.
Além do trio remanescente, estão
no filme a viúva de Curtis, Deborah;
a amante belga, Annik Honoré; Tony
Wilson, um dos “cabeças” da
Factory Records (gravadora independente fundada
em 1978); e o próprio Corbijn que,
na época, fez inúmeras sessões
de foto com Curtis e cia.
Dirigido por Grant
Gee, responsável
por Radiohead: 7 Television Commercials (de
1998), e roteirizado por Jon Savage, o documentário
tem revelações importantes.
Uma das mais comoventes é do baixista
Peter Hook que, entre lágrimas, conta
que um dos maiores arrependimentos de sua
vida foi não ter comparecido ao enterro
de Curtis.
Embora existam passagens
alegres e narrativas mais leves, este é o
clima predominante do filme, um emotivo
mosaico montado por
Gee, com imagens raras e antigas da banda
colorindo ainda mais o resultado final.