Crítica:
Por Lúcia Helena Camargo
Uma
juíza é encarregada de investigar
empresários envolvidos em falcatruas,
enriquecimento ilícito, negociatas
inexplicáveis e evasão de
recursos públicos. Os termos são
bem conhecidos de todos que lêem
jornal ou assistem à televisão
no Brasil. Mas aqui se trata do enredo
do filme A Comédia do Poder, a história
se passa na França.
O
aviso de que qualquer semelhança
com acontecimentos e pessoas reais é apenas
fortuita serve para descartar processos judiciais,
mas incentiva o público a procurar
as "coincidências". Não é segredo
que foi baseado no vultoso caso ocorrido
na década de 1990, envolvendo a empresa
petrolífera ELF e o governo da França.
No longa-metragem, a empresa é chamada
de FMG, para não restar dúvidas
sobre o paralelo: são as três
letras seguintes no alfabeto.
O público brasileiro
pode divertir-se acompanhando a juíza
Jeanne Charmant Killman (Isabelle Huppert) em
suas
nada sutis
investidas contra a corrupção.
Implacável, ela acusa sem pestanejar.
O empresário Michel Humeau (François
Berléand), presidente de um importante
grupo industrial, engalfinha-se em rebuscadas
explicações sobre gastos de
50 mil euros na piscina da casa da amante
e desespera-se ao ser preso em sua cela especial,
bem diferente dos quartos de hotéis
cinco estrelas aos quais está acostumado.
Ele tem problemas
alérgicos
e não
pára de se coçar. Incomoda-se,
coça-se, presta depoimento, coça-se,
declara-se perseguido e coça-se um
pouco mais. Fica a impressão de que
sua alergia é contra a própria
investigação e, por extensão,
contra a verdade.
Huppert, pela
sétima
vez a escolhida do diretor Claude Chabrol para
protagonista,
parece bem à vontade no papel dessa
respeitável senhora pouco charmosa,
fria e determinada, que vai fundo na questão
e consegue colocar na cadeia alguns investigados, às
custas de interrogatórios severos
e ações certeiras.
À
medida que torna-se mais implacável,
uma ambição de natureza diferente
daquela que embriaga os altos escalões
turva a mente da juíza, competente
e crédula em uma moral rígida,
porém à mercê dos desequilíbrios
da alma humana. Tudo sem tirar suas luvas
vermelhas. O adereço, mais do que
proteger contra o frio, parece ser sua inconsciente
proteção contra a sujeira na
qual ela não quer tocar.
Do outro lado do balcão,
empresários
e funcionários do governo tomam armanhaque
enquanto discutem negociatas e comemoram
os êxitos com champanhe Taittinger.
Longe dos tribunais
e salões
de depoimento, a mulher encontra em casa algum
consolo,
pois vê no marido qualidades que não
enxerga em ninguém mais. "Neste
mundo de cínicos, ele mantém
um sorrido sincero", diz. Mas isso não
impede que sua vida pessoal comece a ruir.
Chabrol, que
aos 77 anos tem no currículo
quase 50 filmes, é figura sempre em
evidência no cinema francês.
E foi, ao lado de François Truffaut
e Jean-Luc Godard, crítico da revista
Cahiers du Cinéma e um dos envolvidos
no nascimento do movimento da Nouvelle Vague.
Entre seus mais inspirados filmes está Madame
Bovary (1991), também com sua atriz
predileta.
Porém, às
vezes embrenha-se demais em suas próprias
teses, com resultados lamentáveis, como
em Teia de Chocolate (2000) e A Professora de
Piano (2001), ambos com Huppert no papel principal.
Mas em A Comédia
do Poder, indicado ao Urso de Ouro no Festival de Berlim, a ironia vem na dose
certa, sutil, como a transformação pela qual passa a personagem.
Não se trata de uma comédia de fato,
para gargalhar na poltrona. O que sobra é um riso triste, pela constatação
do óbvio:
de que a falta de escrúpulos não é "privilégio" de
poucos e nem uma questão recente. Em maior ou menor grau, existe aqui,
acolá, no mundo todo.