O final do século XIX até os anos de 1910, período conhecido como a “Belle Èpoque”, as mulheres usavam vestidos longos, repletos de babados e sobre-saias. Alguns deles, em forma de sino, só permitiam que andassem a passos curtos. As golas altas cobriam o pescoço, as botas escondiam as canelas e os espartilhos eram tão apertados que elas mal conseguiam se abaixar. Era chique usar muito adorno, como chapéus com flores e plumas sobrepostos a coques fofos, sombrinha em cetim e peles de animais.
Irritada com tantos penduricalhos e uma moda pomposa e opressora, a francesa Gabrielle passou a furtar roupas masculinas dos armários de seus amantes, remodelá-las e compor vestidos e peças práticas ao seu dia-a-dia.
Desta atitude vanguardista a se tornar Coco Chanel (1883-1971), maior ícone da moda, é o que o filme Coco Antes de Chanel (Coco Before Chanel/2009) que estréia nesta sexta feira na cidade, se propõe a mostrar.
Audrey Tautou (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain/2002) é quem brilha ao interpretar a trajetória de uma garota que emergiu de uma infância pobre para se tornar a maior revolucionária do mundo da moda. “Ela era dotada de uma personalidade excepcional, destinada a estar à frente de seu tempo e de uma sociedade em que as mulheres eram prisioneiras de comportamentos e de um vestuário alienante”, ressalta a diretora do filme, Anne Fontaine.
Coco Chanel foi pioneira no ofício de vestir mulheres com elegância e conforto - exatamente por saber, nesse departamento, o que as mulheres realmente queriam. “Eu tinha que tornar fora de moda tudo o que eu detestava”, declarou uma vez.
Todavia, Coco Antes de Chanel não retrata a estilista em sua forma final: severa, segura e famosa, como sempre foi revista em outras produções. Não é uma biografia convencional, pois nem atinge o momento de maior glamour da personagem.
A história se debruça sobre suas primeiras experiências com a tesoura, e vai revelando para o espectador, ao longo das cenas, como ocorreram algumas de suas idéias para cortes, cores e modelagem.
O orfanato, onde foi deixada pelo pai com suas irmãs, após a morte da mãe, inspirou o preto e branco. O uso do listrado, aparece após uma viagem à praia atenta aos sweaters dos pescadores. O abandono do espartilho está em uma cena de cabaré, onde retira o artefato para se apresentar com mais liberdade, e a criação das calças como parte do guarda-roupa feminino - aparece na hora que vai andar a cavalo na mansão do barão Etienne Balsan (Benoît Poelvoorde).
Assim, como suas criações vão se fortalecendo, seu caráter impetuoso floresce na tela. O apelido de “Coco” veio da canção sobre um cachorrinho “Qui qu'a vu Coco?”, a qual interpretava em dueto com a irmã. Neste período, costurar era cerzir e fazer bainhas nas roupas de madames.
A amizade e o caso com o dândi Étienne Balsan fez Chanel conviver com burgueses e artistas. Balsan escondia Coco de seus amigos por achá-la inadequada àquele meio. Coco, para afrontá-lo, invadia as festas em trajes masculinizados. O contraste entre as outras damas era tão gritante que fazia com que os trajes espalhafatosos ficassem ainda mais exagerados.
“Com aquilo na cabeça, não admira que não consigam pensar!”, manifestou-se a personagem em relação aos chapéus das outras. Em 1913, Chanel abriu sua primeira loja de chapéus em Paris, com a ajuda do amante milionário, o inglês Arthur Boyle.
Coco antes de Chanel termina no momento em que a personagem de fato inicia sua carreira de sucesso. Fatos como a polêmica de sua colaboração com o 3o Reich de Adolf Hitler, o exílio na Suíça, e a relação amorosa tanto com um espião nazista e com o músico Igor Stravinsky, ficam de fora. Não por omissão, e sim pelo recorte temporal que Fontainne escolheu.
No desfile final, Coco, sentada numa escadaria, observa suas modelos desfilarem. As peças de épocas diversas, foram emprestadas pelo Conservatório Chanel e outras reproduzidas fielmente, em um desfecho avant garde!