Crítica:
Por Geraldo Mayrink

     Num país tão musical quanto este, que ninguém se perca por falta de memória. Por isto há muito o que ver e ouvir em Chega de Saudade, filme que reúne muitos personagens amarrados num fiapo de história. Eles vivem para bailar, pra que negar? São os que se reúnem num salão de dança e estão lá justamente para se desamarrarem de fios de história.

Tudo se move. A câmera do fotógrafo Walter Carvalho, amarrada à cintura dele, rodopia junto com os bailantes. Um pouco à maneira do notável O Baile, de Ettore Scola, onde todos dançam, mas não abrem a boca, é de novo no gingado dos quadris e nas coxas coladas que se enfileiram fragmentos de biografias. O principal elemento de adorno são as rugas. O instrumento de expressão são pernas e pés.

A temida terceira idade envolve quase todos eles, que não parecem temê-la. Nas mesas do salão de ficção Chega de Saudade, falam com vozes meio abafadas. Quando se levantam, os espíritos de Fred Astaire ou de Ginger Rogers baixam no salão verdadeiro União Fraterna, em São Paulo, e a alegria do sapateado impera.

O batalhão de pés-de-valsa renasce, com grande alegria, sem nada de múmias-dançantes, como os mais maldosos poderiam alfinetar. É uma gente calejada pelo bate-pernas da vida e o elenco mostra isso nas suas máscaras.

Álvaro (Leonardo Villar) está de mau-humor por causa do pé quebrado, sentado ao lado de Alice (Tonia Carrero), que o acompanha ao salão há 25 anos e a quem ama em silêncio. Elza (Betty Faria) é carente, revoltada e algo inconveniente. Marici (Cássia Kiss) se torna amiga da jovem Bel (Maria Flor), namorada do ciumento DJ Marquinhos (Paulo Vilhena).

Os demais dançarinos não são tão famosos, mas conhecidos: Stepan Nercessian, Miriam Mehler, Clarisse Abujamra, Selma Egrei, Jorge Loredo, que na aurora dos tempos foi o popular Zé Bonitinho. Mas a grande maioria é anônima, o que reforça o lado documentário desta obra tão romântica.

A diretora Laís Bodanzky (de Bicho de Sete Cabeças) e o roteirista Luis Bolognesi acertaram o tom nesta sua busca da fonte da eterna juventude. Isso enfeita até as cinco músicas (de um total de 17 na trilha) cantadas por Marku Ribas e principalmente Elza Soares. Acredite se quiser, mas a cada aparição a grande Elza está cada vez mais jovem.

 

 

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