O líder revolucionário Che Guevara, assassinado na Bolívia em 1967, é uma das personalidades mais difundidas da história. Segundo pesquisas, a exposição da sua imagem estampada em camisetas, pôsteres e suvenires ao redor do mundo só fica atrás da de Jesus Cristo. O cinema não está de fora com diversos filmes sobre o guerrilheiro.
Há documentários, romances, como a do cineasta brasileiro Walter Salles que relata a vida de um Guevara quando ainda nem era “Che”, em Diários da Motocicleta/2004 e até versões em que o mito é mostrado como um assassino frio, na estréia como diretor, do ator cubano exilado Andy Garcia, no filme A Cidade Perdida/2005.
A mais nova produção do diretor Steve Soderbergh (Sexo, Mentias e Videotape, Traffic, Onze Homens e Um Segredo) tenta dar conta de toda a saga do herói comunista, em um filme de mais de quatro horas de duração, lançado em duas partes para alívio dos espectadores.
Che, O Argentino é a primeira parte a estrear no Brasil. Baseado nos diários de Ernesto Che Guevara, o filme narra o início da Revolução Cubana. Já a segunda parte, Che, O Guerrilheiro, que deverá estrear em um intervalo de dois meses, mostra a tentativa de Guevara de repetir o feito cubano na Bolívia, cujo fracasso resultou na sua morte.
Protagonizado pelo ator norte-americano de origem porto-riquenha Benicio del Toro, o filme (as duas partes) custou US$ 60 milhões e foi rodado na Espanha, Bolívia, México, Porto Rico e nos EUA, na cena da ONU.
A caracterização de Del Toro está excelente, muito parecido realmente com o mito, assim como o papel do ator brasileiro Rodrigo Santoro que interpreta Raúl Castro, irmão de Fidel Castro (Demián Bichir).
No entanto, a composição dos personagens não salva o filme, que é cansativo e nada inovador. "Há muitos aspectos da vida de Che que as pessoas não conhecem. Se contássemos o que ocorreu na Bolívia sem mostrar o que houve antes, não haveria contexto para entender a história", comentou Soderbergh.
Assim, o diretor começa seu “épico” com o encontro de Guevara com os dois irmãos, Fidel e Raul Castro no México, se estende longamente pela luta de três anos em Sierra Maestra até a vitória em Santa Clara em 1959, que derrubaria o governo do presidente Fulgêncio Batista e instauraria o regime socialista em Cuba. Cenas em preto e branco de uma reunião na ONU, em Nova York, em que Guevara fala da vitória de Cuba são intercaladas com a batalha, pretendendo dar um ar documental ao filme.
O problema é que Soderbergh pulou um grande trecho da história: a época em que Che foi ministro do governo de Fidel e acusado de diversas atrocidades e assassinatos. A segunda parte do filme salta diretamente para a saga na Bolívia, país onde ele morrerá. E esta parte é a mais arrastada, com uma tediosa perseguição na floresta boliviana e as crises asmáticas do argentino.
"Cuba é um assunto que me interessa menos do que Che", disse Soderbergh. O que seria mais verdadeiro é dizer que o que mais interessou ao diretor foi o “mito Che”. Obviamente, o filme foi ovacionado em Cuba.