As
mensagens não enviadas de uma
ilha de terror, enterradas num saco e descobertas
muitos anos depois da batalha travada no
fim da Segunda Guerra Mundial, são
o assunto de Cartas de Iwo Jima. Quem acabou
de ver A Conquista da Honra, a face americana
do mesmo episódio, sabe do que se
trata, mas não do conteúdo
da face japonesa da história. Nos
dois filmes, o diretor Clint Eastwood trata
de gente comum, soldadinhos na flor da idade
com a espada da morte pairando sobre suas
cabeças. Alguns americanos estavam
condenados ao heroísmo, os japoneses
fadados ao sacrifício reverencial,
ditado pelo destino.
Mas os cruéis orientais como foram
retratados em centenas de filmes ocidentais,
só não são absolutamente
iguais aos heróicos americanos – pois
ninguém queria estar numa guerra -
por uma determinação cultural.
Disseram aos jovens japoneses que perdessem
a esperança em voltar vivos, preparando-se
para a honrosa imolação em
nome de pátria, enquanto à moçada
americana jamais se aterrorizaria com um
desfecho assim este, pois, apesar dos perigos,
tudo um dia voltaria a ser como antes.
Nada foi como antes
para os sete mil soldados americanos mortos,
nem para os vinte mil
(fora doze mil corpos nunca encontrados)
japoneses tombados. Outra diferença
entre os dois filmes é que este, ao
contrário de A Conquista da Honra,
tem um personagem principal marcante, o general
Tadamishi Kuribayashi (Ken Watanabe, de O Último
Samurai e Memórias de uma Gueixa).
Eastwood não esconde sua simpatia
e até admiração por
este combatente de talentos muito especiais.
Os outros são o padeiro Saigo (Kazunari
Ninomiya), cujo único sonho era viver
para conhecer a filha recém-nascida,
o campeão eqüestre Nishi (Tsuyoshi
Ihara), o policial idealista Shimizu (Ryo
Kase) e o orgulhoso tenente Ito (Shidou Nakamura),
que preferia suicidar-se a render-se. Todos
escreveram cartas singelas a suas mulheres
e famílias, sem esperança de
que elas chegassem aos destinatários.
Diante deles, o general é um gigante,
que diz: "Estarei sempre na frente de
vocês". Ele havia estudado nos
Estados Unidos, onde era respeitado a ponto
de ganhar uma pistola de presente numa festa
elegante, onde o aplaudiram entre sorrisos.
Sabia bem o que valia o exército daqueles
que um dia o homenagearam tão carinhosamente.
Os americanos não sabiam quem ele
era de verdade. Tanto que esperavam tomar
a ilha em cinco dias, mas se surpreenderam
quando os combates se prolongaram por quarenta.
Para enfrentar a missão impossível de derrotar uma tropa superior,
Kuribayashi cavou 280 quilômetros de túneis, cavernas e casamatas
subterrâneas, de onde os japoneses poderiam atirar nos americanos sem
que estes os vissem, recomendando a seus soldados que matassem pelo menos dez
inimigos antes de serem mortos. Sua guerra contra os Estados Unidos, país
com o qual tinha afinidade, era convicta e apaixonada – um papel, se
o filme não fosse falado em japonês, que seria apropriado para
o próprio diretor. "Atuar é atuar, quando o trabalho é bem
feito, é bem feito mesmo não se entendendo a língua falada",
ele diz. Muitas das cartas do general foram enviadas dos Estados Unidos e guardadas
pela família. Da ilha escreveu para a mulher e os dois filhos, enfeitando
o papel com desenhos e caricaturas de humor, e isto confinado no inferno de
terra arenosa onde num certo momento faltou até água para beber
e minhocas serviam de refeição. Enfim, a conquista da honra poderia
ser o título de qualquer uma das duas versões, a branca e a amarela.
O filme impressiona pela sobriedade e tom solene e fatalista que costuma rechear
as tragédias do Oriente, embora seja um produto de Holywood, escrito
por uma roterista nipo-americana, Iris Yamashita, e comandado por um autêntico
general-diretor branco, de porte e dignidade à altura de seu principal
personagem de inquietos olhinhos repuxados. Guerra é guerra e a única
coisa boa dela é que costumam inspirar bons filmes.